Domingo, Maio 24, 2009

Era maximalista

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Gustave Moreau, Heracles y la Hidra de Lerna (1876)

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O spam, esse maldito penetra, Hidra de Lerna de cabeças replicantes, com a sua esfera de acção massificada, tão ou mais osga que um anúncio às Chiquititas*, e a sua quase ilimitada área de influência, amplificou esse pernicioso fenómeno de cariz psico-sexo-sócio-cultural: o maximalismo, cuja primeira permissa assenta no more is more. A mensagem não podia ser mais simples e directa. Nem a matéria das mais sensíveis, dado que poucos serão os que de algum modo não se sintam postos em causa. Daí que, com elevada probabilidade, siga direitinha ao alvo. É o que se chama fazer jogo baixo.
* vejam só ao tempo que tinha isto no meio do entulho dos rascunhos. O facto de ao menos uma das pragas ter sido debelada do nosso campo visual é motivo de salutar regozijo, aliás, a única valia na repescagem anacrónica deste texto.


Quarta-feira, Maio 13, 2009

Áptero, malgré lui

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O tempo é como um avião sem caixa negra, cuja rota nunca poderá ser uma linha recta. Conhecemos-lhe os pontos de partida e vagamente os de chegada. Sabemos que voou, que passou célere, mas não fazemos ideia por onde. Chegará o dia em que se despenha sem deixar registo. E com uma pontinha de sorte, tudo muito limpinho, sem vestígios, nem destroços.


Terça-feira, Maio 05, 2009

O censor vigilante

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O lápis azul não se desgruda dos dedos.
Nunca estarei nestas linhas. Fiz-me
eternamente refém desta pessoa que assina.
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Never-ending horror

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A notícia não é nova, bafienta até, mas tropecei nela há dias. A ideia de Hitler ter deixado descendência, fez-me reviver os medos com que a saga 'Alien' me pregava ao sofá: a suspeita da hedionda criatura ter, in extremis, arranjado novo hospedeiro, o que, invariavelmente, obrigaria à realização de nova sequela. Por mais infundada e descabida que seja a analogia, é como se as palavras "eterno retorno" ecoassem de uma sentença testamentária ainda por cumprir...
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Hinnerk

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Desde que li "Jerusalém" do Gonçalo M. Tavares, nunca me pareceu tão real a perspectiva de que todos os males contemporâneos possam aglutinar-se num só nome. E o mal muda de rosto para ser sempre o mesmo.
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Regra de Lamarck

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O uso faz o músculo (qualquer coisa assim) e isto de escrever está mais que enferrujado. Mas uma coisa vos peço: não me façam o encefalograma tendo por base o que escrevo. Que todo aquele que escreve é um fingidor. E já nem me refiro a poetas e prosadores.
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Stream of unconsciousness

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Em modo 'corrente de inconsciência'. Numa tentativa vã de varrer as teias de aranha de um canto para o outro.
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O meu nick é Beat

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- Se pudesse reencarnar? Sem hesitar: reencarnava como beatnik...
- Ó meu imbecil, reencarnar não é voltar ao passado!
- Mas quem disse que os gajos já eram pasto?
- Hmm... Falas de um revival?
- O movimento nunca morreu, pá! Basta um tipo pôr-se a jeito, com guitarra e sacola às costas, meter-se à estrada... polegar em riste (um instinto que nasce com todos)... é quanto basta para te sentires transportar a chama olímpica. É um cena perene, uma comunhão que não se apaga...
- Entre outras coisas, acho que a ganza te faz mal.
- É um artefacto, para as horas vagas. Não vem daí mal ao mundo.
- Só coerência e discernimento, suponho... Mas olha lá, já leste o Kerouac? Ou o Ginsberg?
- Umas coisas. Aqui e ali. E na sacola levo o manual.
- Qual deles? O Pela estrada fora?
- Lógico. Brincas?
- E pensas ir aos Estates?
- Ya.
- De polegar em riste?
- Lá me hei-de desenrascar. Talvez arranje trabalho a bordo de um navio.
- O tramp steamer deu-te volta ao miolo, foi o que foi. Acabas é indo para a Noruega pescar bacalhau, que te quilhas.
- E era mau? Apeava-me nos portos e aventurava-me na senda de belas nórdicas a quem dedicar poemas, dedilhar acordes...
- Havias de dedilhar muito com os dedos rachados do frio.
- Fogo! Que cortes que tu me saíste...
- Ó meu, de amigo para amigo: acorda! Já vem sendo tempo.
- Sabes qual é o teu problema? O cagaço. Parece que te empalou de feição, a modos que nem morres, nem vives, nem deixas viver... Orienta-te, bolas. Não te excluas. Há lugar para ti. Para todos. Não me cortes é os sonhos pela raíz.
- 'Tou a ver. Já a erva te sai pela boca...

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Sexta-feira, Março 27, 2009

O Cativo

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Klee, Captive
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I

A minha mão tem só um
gesto de afugentar;
da fraga húmida caem
gotas sobre as velhas pedras.

Ouço só este bater,
meu coração acompanha
este cair das gotas
e com elas se desgasta.

Se caíssem mais depressa,
se outra vez viesse um bicho...
Algures havia mais luz -.
Mas, que sabemos nós?!


II

Imagina o que agora é céu e vento,
e respiração da boca e luz dos olhos,
petrificado em volta do lugar
que te rodeia o coração e as mãos;
e o que é amanhã e: depois e: mais tarde
e o ano que há-de vir e os mais que virão -
que era chaga aberta em ti, cheia de pus,
toda inflamada, e não mais amanhecia;

e que tudo o que foi endoidecia
e esbracejava em ti, a linda boca,
que nunca ria, espumante de riso;
e que o que foi teu Deus era só o teu guarda,
e metia, de mau, na última abertura
um olhar sujo. E tua ainda vivo.


Rainer Maria Rilke
(tradução de Paulo Quintela)



Sábado, Março 07, 2009

Cartografia

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"O inferno dos vivos não é uma coisa que virá a existir; se houver um, é o que já está aqui, o inferno que habitamos todos os dias, que nós formamos ao estarmos juntos. Há dois modos para não o sofrermos. O primeiro torna-se fácil para muita gente: aceitar o inferno e fazer parte dele a ponto de já não o vermos. O segundo é arriscado e exige uma atenção e uma aprendizagem contínuas: tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é o inferno, e fazê-lo viver, dar-lhe lugar."

Italo Calvino "As Cidades Invisíveis"


Quarta-feira, Fevereiro 04, 2009

Tenhi - Maaäet (2006)

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Banda finlandesa, um dos expoentes da onda neo-folk/dark-folk. Para quem gosta de ambiências melancólicas.
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Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Tenhi - Kausienranta

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Do álbum "Maaäet" (2006).
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Nest - Trail Of The Unwary (2007)

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Agalloch - The Mantle (2002)

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Blood Axis - The Gospel of Inhumanity

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Bach originally composed the music for two of the tracks. The lyrics to "Between Birds of Prey" are taken directly from the writings of Nietzche. None other than Charles Manson orates the vocals for another track. Add fantastic packaging along with an apocalyptic and melancholic aura permeating throughout, and how could I not salivate all over this disc? This is easily one of the more diverse recordings that I have encountered; the best description for this is ambient gothic with heavy symphonic influences, but that alone does not give Blood Axis justice. A heavy early Current 93 and Death in June influence can also be detected, but three tracks build a foundation upon an electric guitar, something that neither of the two aforementioned bands have been willing to attempt. The vocals can equal the music in its decrepit beauty; they are deep, unwavering, and powerful, and the corresponding lyrics generally deal with themes that can be associated with Nietzchian/philosophical Satanist/etc. dogma, with a bit of a militaristic flair thrown in. Some of the better lyrical moments include the two-minute "make love - make war" mantra, along with the mythology-based "Reign I Forever", written by H. W. Longfellow. So far, this is my favorite release in an otherwise disappointing '96.

by Andrew Lewandowski
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Sábado, Janeiro 10, 2009

Marx escreve a Marx

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Anselmo Borges -
DN 2009-01-10
Padre e professor de Filosofia

De passagem pelo aeroporto de Colónia, lá estava. Lançado nos finais de Outubro, é best-seller há semanas. Estou a referir-me ao livro Das Kapital ("O Capital"), de Marx - desta vez, porém, não Karl Marx, mas Reinhard Marx, arcebispo de Munique. Ele foi professor de Ética Social Cristã e, antes de chegar a Munique, passou seis anos como bispo auxiliar de Trier, a cidade na qual Marx, o Karl, passou a meninice e a juventude e conheceu a sua futura mulher, Jenny.

Reinhard Marx abre com uma carta ao seu homónimo, esperando que, após a morte, tenha verificado que se enganou quanto à não existência de Deus e, assim, possa ser mais benevolente para com um homem da Igreja. O diálogo pode ser frutífero, pois consta que, pouco antes de morrer, terá dito: "Só sei que não sou 'marxista'."

Karl Marx enganou-se, quando pensou que o seu programa se podia resumir na "abolição da propriedade privada". Também não se realizou, no conflito entre o trabalho e o capital - concretamente na Alemanha e outros países industrializados -, o seu vaticínio de uma revolução radical. Contra as suas previsões, a revolução acabou por ter lugar onde não devia: a Rússia.

Mediante contratos sociais de trabalho, sindicatos activos, toda uma regulação sócio-jurídica e a participação dos trabalhadores, criou-se uma sociedade na qual estes passaram de vítimas do sistema de mercado a participantes dos seus sucessos. "Pareceu possível o bem-estar para todos", a ponto de o próprio J. Habermas ter escrito: "O designado portador de uma futura revolução socialista, o proletariado, dissolveu-se enquanto proletariado."

Mas isto foi uma ilha com sol de pouca dura. Com a globalização, as novas possibilidades de troca de informações, bens e serviços a nível global tornaram o antigo conflito indiscutivelmente favorável ao capital, tanto mais quanto, como disse Manuel Castells, na actual sociedade em rede, está em vigor a fórmula: "O capital é essencialmente global, o trabalho é em geral local." Aumentam assim as possibilidades dos investidores e especuladores. O lema é: "Demolição do Estado social e desregulação."

O abismo entre ricos e pobres é cada vez mais fundo no mundo e nos países. Mais de 2,5 mil milhões de pessoas têm de viver com menos de dois dólares por dia, mas há mil milhões em pobreza extrema, pois têm de sobreviver (?) com menos de um dólar. Mais de metade da riqueza mundial está nas mãos de dois por cento da Humanidade.

Parece que Marx tinha razão quanto à sua tese da acumulação e concentração progressivas do capital. De facto, de ano para ano sobe o número dos super-ricos. E a crise financeira internacional veio mostrar a força com que "já hoje o capital anónimo determina o nosso destino". Os bancos e os fundos com as suas especulações deitaram a perder milhares de milhões. Mas, agora, depois de tanto se ter propagandeado a necessidade de o Estado se não intrometer no mercado, "tem de ser o contribuinte a responder pelas perdas especulativas". "Os lucros são privatizados e as perdas, socializadas."

Será a História a dar razão a Marx? O capitalismo vai afundar-se por si próprio? Responde o bispo Marx: "Dr. Marx, espero que não. E por várias razões." Ele sabe que não foi o seu homónimo, mas os seus discípulos bolchevistas a pôr em marcha o comunismo soviético. Mas o que é facto é que o programa da socialização dos meios de produção levou à estatização, desembocando numa ditadura política, por vezes totalitária.

É necessário distinguir entre um capitalismo sem limites e uma economia social de mercado. Um "capitalismo primitivo" é injusto, contra a pessoa, e, por isso, não aceitável. Mas um capitalismo enquadrado politicamente, no sentido de uma economia social de mercado, foi "o único caminho correcto, e este caminho continua hoje sem alternativa razoável".

Há uma pergunta que preside ao livro: as pessoas são para o capital ou o capital deve estar ao serviço das pessoas? A resposta é: "Um capitalismo sem humanitariedade, solidariedade e justiça não tem moral nem futuro."



Sábado, Novembro 22, 2008

Vampiros

.The Addiction (Os Viciosos) de Abel Ferrara
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Deambulam por meandros onde a toda a hora se chora.
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Terça-feira, Setembro 23, 2008

Sequóias

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Ao contrário do que aparenta, a mão no peito é um ramo que não se partilha, que não se estende a ninguém. Isto embora tudo quanto possa conter a pequena caixa de ressonância não passe de um segredo insignificante. Zelamo-lo apenas porque é nosso. Tão só porque é nosso. Colem-se os ouvidos ao tronco e apenas se ouvirá um sopro, como o da seiva de antiquíssimas sequóias, furtiva a quem ouse desvendar-lhes a vida. A escala de tons, ainda que diminuta, nega qualquer garantia de acesso; a chave mestra sempre foi manejada por convenções.
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Terça-feira, Agosto 05, 2008

Outsider

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Sinalefa mental de quem veio de longe, de quem se viu arrancado do berço. Apesar do rápido aprendizado linguístico, as suas palavras eram outras - continuava a falar estrangeiro. Pior: soava estranho. E em resposta: um mínimo de palavras... com que levou em diante o esforço de entender o desdém que lhe ganharam as gentes da terra a que aportou.
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Quarta-feira, Julho 16, 2008

Bill Fay - Bill Fay (1971)



Quinta-feira, Junho 26, 2008

Sean Penn - Into the Wild (2007)

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Quinta-feira, Junho 12, 2008

Songs: Ohia - The Magnolia Electric Co.

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Domingo, Maio 25, 2008

Cidades Invisíveis ou Cesariana

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De noite, os colossos talhados em pedra
travestem-se em fantasmas de betão.
Apêndices de néon piscam ao longo das vias
as suas altas silhuetas de espectros.
Nos troncos altos cravados de balas
apagam-se luzes, reacendem-se fogos,
derrama-se a seiva coalhada das últimas horas
sobre tantos seres, sobre tantas vidas
quanto as que se entalharam por esses ramos fora.
A folhagem verde de uma gelosia que ainda desce,
cicia ao vento a sua verve impaciente pelo novo dia,
mas a cirurgia adensa-se e prolonga-se
no bloco operatório do bairro oeste.
Na sua fase mais delicada a noite saca
do bisturi providencial com que golpeia
os retículos das fachadas a china-clay.
A ramagem queda-se muda na maca:
silêncio pétreo de corpo inerte, anestesiado.
E uma a uma dos corpos-múmia,
por mãos assépticas e enluvadas,
são removidas as balas cravejadas
esterilizadas em finos sonhos de látex.
A ferida, essa, cose-se com a bruma,
para enfim vir a sarar num sono estéril.
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Quarta-feira, Abril 23, 2008

Narradores de viagem

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Ao fim de cada viagem expandimos em nós as gavetas, o álbum a abarrotar de excertos cuja análise de tão néscia adiamos, consentindo que bóie em reservatório estanque. A insegurança dos dias... que bem que justifica o fiel desvio. Paramos frente ao mostruário onde nos fascinam recordações. Em saldo tenta-nos o caleidoscópio que nos baralha. Entramos e somos abordados. Que sentido extraímos do paleio do vendedor? Sem que ele o saiba, sem que o saibamos, impinge-nos vigarices. Convence-nos que a pilha de imagens é partilhável, transmissível a quem não nos acompanhou em viagem.
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Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Covers festivas

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O álbum "Version" (2007) de Mark Ronson é uma caixinha de surpresas. Destaco a participação da Amy Winehouse numa das faixas, com o seu vozeirão inconfundível. E ainda uma versão swingada do "Just" dos Radiohead, recheada de sopros e metais. Figuram aqui sons que o Tarantino não desdenharia ver entrar na banda-sonora de um dos seus filmes. Digo eu.



Sábado, Fevereiro 16, 2008

Gretchen em alemão, Margarida em português

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Murnau, Faust (1926)

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Bem-lhe-quer

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Caspar David Friedrich, Couple Gazing at the Moon (1807)

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Fausto:
Conheceste-me, anjo do meu coração,
Quando há pouco no jardim entrei?

Margarida:
Não vistes? Pus logo os olhos no chão.

Fausto:
E perdoas a liberdade que tomei?
E o que se permitiu minha ousadia
Quando da tal catedral saías no outro dia?

Margarida:
Era a primeira vez, fiquei perturbada;
Ninguém tinha nada que me apontar.
E pensei: Será que ele viu no teu andar
Qualquer coisa imprópria ou mais ousada?
Parece que ao primeiro olhar
Uma moça como eu decidiu namorar.
O que me deu, confesso não sei,
Para logo em mim achardes só favor;
Só sei que comigo me zanguei
Por convosco me não poder zangar.

Fausto:
Meu amor!

Margarida:
Posso?

Colhe um malmequer e começa a arrancar as folhas, uma a uma.

Fausto:
Que é isso? Um ramalhete?

Margarida:
É só um jogo.

Fausto:
Qual?

Margarida:
Não troceis! Ide!

Desfollha o malmequer, murmurando.

Fausto:
Que murmuras?

Margarida (a meia voz):
Bem-me-quer, mal-me-quer...

Fausto:
Oh, anjo em figura de mulher!

Margarida (continuando):
Bem-me-quer... mal... bem... mal-me-quer...

(Arrancando a última folha, num grito de pura alegria.)

Bem-me-quer!

Fausto:
Minha vida! É um divino oráculo.
O que essa flor te diz: que ele te quer bem!
Entendes o que isso é, que ele te quer bem?

Pega-lhe nas mãos.

Margarida:
Sinto um calafrio!

Fausto:
Não estremeças! Deixa que este olhar
E o calor desta mão te digam
O que é inefável é:
A entrega total e o sentir
Um êxtase que tem de ser eterno!
Eterno, sim! Seu fim seria desespero.
Um fim não! Não, sem fim!

Margarida aperta-lhe as mãos, liberta-se e foge. Ele fica um momento absorto e depois segue-a.
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in Fausto de Johann W. Goethe (tradução de João Barrento)
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Sexta-feira, Fevereiro 15, 2008

Oblivion

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"Em tempos em que a ciência social começou a se aproximar da televisão como instauradora da realidade (Baudrillard, por exemplo), o cinema [Cronenberg, Videodrome] deu a sua contribuição mais espetacular e apocalíptica à questão, num claro artifício pavloviano de ação-reflexa."
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"A desumanização é aterrorizante, as relações se dão todas pelo vídeo. O mundo daqui em diante será oblivion [esquecimento]." (daqui)
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Body piercing's next step

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"While serving as a guest on a talk show, Max meets Nicki Brand (Deborah Harry of the rock band Blondie). They flirt and soon end up back at Max's apartment - where she says porn gets her in the mood, so she looks through Max's collection of videotapes and chooses a tape labeled "Videodrome." Instead of being shocked by what she sees, she's turned on. Soon afterwards, she introduces Max to the wonders of body piercing as a sensual pleasure - as well as the pleasure (?) of a lighted cigarette burning into bare flesh."
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Nowadays drome

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"Cronenberg wondered what might happen if you picked up a strange broadcast, where events possibly illegal were taking place. What would you do? (...) Max Renn (James Woods), witnesses just such a broadcast signal, this time from a satellite station called "Videodrome." He sees a woman being tortured in a red room with clay walls. He sees only a few seconds of the transmission before static overcomes the signal. He doesn't consider the legality of the broadcast or what his ethical responsibility should be having witnessed such a horrific act. He's concerned about learning more: this might be just the sort of thing he's been looking to broadcast on his own cable television station. He knows the broadcast grabbed his attention, and if he's attracted to these extreme images, he assumes other people will be attracted as well - an egocentric attitude that serves as Max Renn's justification for becoming involved in increasingly more extreme and violent forms of sexuality."
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Slit & VCR

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"Rarely has a movie been as prescient about technology (and our response to that technology) as David Cronenberg's Videodrome. Cronenberg envisioned a world where television directly impacted the viewer, even changing the viewer physically so that interaction could be made easier yet. In Videodrome these changes take their most notorious form as a slit that develops in the protagonist's stomach, turning him into a VCR in which videotapes (programming) can be inserted that will directly influence his actions." (daqui)
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Long live the new flesh

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David Cronenberg, Videodrome (1982)
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Ou o advento profético de uma alucinação colectiva.
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Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Incon(torn)áveis minas

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Sais para a noite como quem cuida do enxame nas veias. Dobras cada esquina a mando do estrépito no peito. Andas por onde nada te espera. Nos olhos baços a distorção de luzes. Pequenas bolsas de calor, animadas vozes, jorram dos bares: minas no teu caminho gelado. Um só pé em falso e explodes.
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A má moeda

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A ludicidade, o hedonismo têm duas caras. Uma: prazer superficial, ilusório. A outra: fastio perene. Óbolo de acesso a lado nenhum, travessia pela travessia, tão só isso.
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Ódio

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Hidra de mil cabeças que tudo engole. Enfia-se nas camadas mais internas, onde há vísceras. Escalados para a ruminação, órgãos abandonam os postos – e não passam de açougues.
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Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

O amor de Orfeu e as Ménades

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Emile Levy, Orpheus Slain By The Thracian Women (c.1895)
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Saudade órfica, aquela que nos leva a passar por cima dos medos e descer aos infernos só para tentar re(a)ver a amada. V
isceral ao ponto de desejar ténue essa cortina de ferro, perene desde o início dos tempos, sem retorno, interposta entre mundos em tudo antagónicos. Por impossibilidade de a franquear recria-se o inferno na terra com todos os seus suplícios. A dor não olha a meios sobre até onde se está disposto a ir, just for love. Orfeu e Eurídice, protagonistas do que pode ser lido como metáfora sobre a inexorabilidade da morte, uma reflexão sobre a viuvez, sobre o amor além-vida, além-morte. No mito como no real a morte dita as suas regras. É tudo uma questão de descida caso se baixem os braços, caso se baixem as armas. E aqui entram precisamente as Ménades (insinuaram-se a Orfeu, uma e outra vez, e este teimava em ignorá-las; despeitadas, desprezadas, a sede de vingança só logrou saciar-se ao despedaçaram-lhe o corpo). Funcionam assim como símbolo de forças reactivas que se insurgem contra o beco sem saída em que o viúvo se deixa atolar, contra a apatia e a indiferença que lhe limitam a existência, incapaz de voltar a fruir o que quer que seja. A incapacidade de construir um novo caminho, as oportunidades perdidas são atitudes que se voltam contra o próprio. A actuação das Ménades, enquanto precipitadoras de um destino trágico, reenviam-nos para uma questionável equivalência de escalas temporais: ao fim e ao cabo, qual a diferença entre uma longa vida imersa em tristeza e inércia ou uma vida abrupta e violentamente encurtada tal como sucede no mito? Outras questões se levantam como o respeito pela dor e o sofrimento alheio ou o direito de puxar alguém para a vida, mesmo contra vontade expressa do próprio. As Ménades acabam muito justamente punidas e o amor de Orfeu glorificado para memória póstuma. Mas um amor mais forte que a vida teria sido posto em causa se Orfeu tivesse voltado a amar outra pessoa? Creio no óbvio: a ser assim, se o mito ainda se aguentasse como mito, o que é tudo menos certo, seria indubitavelmente outro.
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Quinta-feira, Fevereiro 07, 2008

Melancolia que estranhamente conforta

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Draconian, Where Lovers Mourn (2003)
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Ouço mal acordo. Ouço durante o dia. Durante a noite nem se fala. Ouço ao deitar e acho que até ouço a dormir, em sonhos. Ninguém percebe esta minha fixação. Paixão dir-se-ia. Ou quase ninguém.

Pois bem, é este, na minha humilde e modesta opinião, um álbum de estreia que roça a perfeição. Exagero? A culpa é destes suecos que não o fazem por menos. Gravadas algumas demos, invariavelmente insatisfeitos com os resultados, só avançaram para voos mais altos quando se sentiram com maturidade suficiente para lapidar o diamante que tinham em mãos. E, cada vez mais, é assim que deve ser, que este mundo não está para amadorismos e mostra-se cada vez menos condescendente no que toca a passos em falso (e se à nascença, pior).

O jogo de vozes à la "Beauty and the Beast", mais que um contraponto, é uma díade como as faces de uma moeda atirada ao ar, girando, girando. No geral, as vocalizações guturais de Anders Jacobsson, também poeta (o que até romantiza a aura "Beast"), não caiem nos excessos que em parte tipifica o death metal - o que para mim é ouro sobre azul (poderia dizer o mesmo, mas com cores ligeiramente mais negras). Na voz seráfica de Lisa Johansson, ó riacho de águas cristalinas, encontro a doçura que conforta após a tempestade. Mas não se pense que este é um álbum de cataclismos: estamos sobretudo no domínio do doom. Em face disto, escorrem de cada faixa gotas da mais prostrante melancolia e os riffs de guitarra parecem reinventar a linguagem do lamento. O doom metal, não poucas vezes, é um último abraço aos condenados da vida. Daqueles que se despedem, se apagam ao fundo do túnel e afinal voltam, recriando um ciclo.

Quero ainda salientar (vamos lá etiquetar o post) a rica apropriação de elementos folk, faixas com pontuações e acentuações certeiras de guitarras acústicas, violino e piano; as arrebatadoras distorções nos terrenos do rock progressivo (piscadela de olho aos Opeth?).

Sim, há por aqui muita dor, muita renúncia, renegação, sensação de perda e vazio, amores perdidos, anjos caídos e idos, mas momentos igualmente luminosos que transcendem a palete dos cinzas, as cores do negrume. Melancolia que estranhamente conforta. E sim há conteúdo, há lirismo, poesia para quem se dê ao trabalho de a procurar. Sob a capa da dureza e de uma mais que enganosa aridez fui sendo guiado por entre tesouros e acredito que outros também o poderão ser.
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Terça-feira, Fevereiro 05, 2008

300 anos (+1)

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Velázquez, Las Meninas (1656)
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Picasso, Las Meninas (1957)
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Contemplar "Las Meninas" destes dois génios espanhóis é quase como piscar os olhos a trezentos anos de História da Arte.
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Quinta-feira, Janeiro 31, 2008

Parangona

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Pen-Ek Ratanaruang,
Invisible Waves (2006)
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Ondas invisíveis engolem fantasma sem lar.
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Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Os (en)cantos da sereia

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Esta música dos Handsome Boy Modeling School, "I've Been Thinking", à qual Chan Marshall (aka Cat Power), mais do que emprestar a voz, irresistível voz, dá alma, corpo, pulsão, tem acompanhado os meus últimos dias como o canto das sereias acompanhavam os marinheiros nos seus trabalhos diários em alto mar: tentando-os a largar tudo e a mergulhar para alcançá-las. Ao contrário de Ulisses, embora bem menos astuto que ele, nem amarrado ao mastro da embarcação resistiria aos (en)cantos e ao chamamento "be my boy" da Chan. Haveria de arranjar maneira de me livrar dos nós e atirar-me ao mar como qualquer mortal que tenha os sentidos intactos. E é assim mesmo que os mortais se afogam.
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Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Ingrid, a corajosa

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É preciso uma boa dose de coragem e um grande amor à arte para se abandonar a meca do cinema, abdicar-se do estrelato, rumar a Itália e resistir às dificuldades que é contracenar com actores amadores sem a mínima noção de tempo e espaço cénicos e que em muitas ocasiões mal sabiam as suas deixas. A não ser que Ingrid, ainda nos Estados Unidos, ainda antes de o conhecer pessoalmente, já se havia apaixonado por Rossellini, pelo que ele mostrou de si em filmes como Roma Città Aperta (1945) e Paisà (1946). O que, mais do que vir a dar no mesmo, exponencia o valor do acto: "perseguir" uma paixão, um amor, independentemente das fronteiras (artísticas, geográficas, etc.).
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Cordelinhos atados aos pés

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Roberto Rossellini e Ingrid Bergman
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Rossellini não gostava de trabalhar com vedetas. A direcção de actores amadores por meio de cordelinhos satisfazia-lhe melhor a veia controladora. E isto dos cordelinhos é mesmo em sentido literal. E também não é por nada que Ingrid e Roberto se separaram.
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Symphonic power metal

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Nightwish, Once (2004)
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Descoberta recente, por intermédio de uma amiga entendida no assunto. Bateu-me forte. Ouço-o obsessivamente, completamente apanhado pela voz de Tarja, pela sucessão de tempestades sonoras e tréguas intermitentes. A estrutura épica, orquestral, dos temas da banda finlandesa (como é evidente só podiam ser nórdicos) chega a ser galvanizante (exemplificado no tema "Nemo"). Pena que o protagonismo de Tarja e o ofuscamento dos restantes membros tenha ditado o seu afastamento. Os Nightwish vêm a Portugal, mas sem Tarja não será certamente o que poderia ser.
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Nemo, doomed to be a nameless soul

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Nightwish - Nemo


This is me for forever
One of the lost ones
The one without a name
Without an honest heart as compass

This is me for forever
One without a name
These lines the last endeavor
To find the missing lifeline

Oh how I wish
For soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I'd give my everything

My flower
Withered between
The pages two and three
The once and forever bloom gone with my sins

Walk the dark path
Sleep with angels
Call the past for help
Touch me with your love
And reveal to me my true name

Oh how I wish
For soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I'd give my everything

Oh how I wish
For soothing rain
Oh how I wish to dream again
Once and for all
And all for once
Nemo my name for evermore

Nemo sailing home
Nemo letting go

Oh how I wish
For soothing rain
All I wish is to dream again
My loving heart
Lost in the dark
For hope I'd give my everything

Oh how I wish
For soothing rain
Oh how I wish to dream again
Once and for all
And all for once
Nemo my name for evermore

Nemo my name for evermore
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Domingo, Janeiro 27, 2008

Raising Victor Vargas

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Férias iniciáticas em película. Um filme em ponto de fuga às regras do género. Para quem achar útil, aqui seguem algumas dicas do adolescente Vargas: bambolear as pernas participando com as ancas em cada passo e, sobretudo, lamber ostensivamente os lábios ao cruzar-se e meter conversa com raparigas (ao desviarem os olhos dos nossos, olham-nos para os lábios, assegura o jovem Vargas).
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Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Por falta

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Por falta de tempo, por falta de inspiração, por falta de vontade, por falta de qualidade(s), este blogue vai fechar. Por uns tempos. Obrigado.
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Sábado, Janeiro 19, 2008

Orfeu e as feras [2]

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Como naquele sketch do Gato Fedorento em que RAP, vestido e maquilhado à Mariza e interpretando um dos seus temas (de puxar à lágrima e ao sentimento), consegue com o simples alcance da sua voz sensibilizar o coração de ladrões (e escroques que tais) e dessa forma pôr cobro às suas malfeitorias. Sketch este que lembra a capacidade de Orfeu em apagar os sinais de discórdia que se geravam entre os tripulantes do navio Argos, subitamente amansados pela extrema beleza da música proveniente da sua lira.
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Efeito Zelig [2]

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Ou a lei das compensações, nem que seja na ficção. Onde Woody é aditivo, Stalin foi deletério.
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Terça-feira, Janeiro 15, 2008

Efeito Zelig

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Não querer apenas aparecer na foto, mas em todas as fotos. Mais que um emplastro, querer reescrever a História e assumir-se ilegitimamente seu protagonista. Querer colher os dividendos de um mediatismo por encomenda.
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Jovem e influenciável

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Era jovem e influenciável. Doses massivas de Cristiano Ronaldo na TV ao som dos The Cure "Why can't I be you". Começou pelos brincos, penteado, roupa desportiva e bola de futebol. Mas faltava-lhe talento. No ginásio ia-se moldando um corpo atlético. Os músculos ora retesavam-se, ora entravam em espasmos, sinal de que no mp3, em modo repeat, se ouvia o "Why can't I be you".
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Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Batata quente

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Numa certa manhã, tão longínqua quanto amorfa, cruzei-me com um mensageiro. À primeira vista notei-lhe o rosto pesaroso e uma ligeira corcunda. Mas só mesmo à primeira vista, certamente fruto de avaliação precipitada. Estudando-o com mais calma pareceu-me elegante e bem conservado para a idade, não se lhe destrinçando, como ajuízara há pouco, sinais de uma longa vida de pelejas ou de pesados fardos. Pelo menos não de ordem física. De outra ordem, suponho que sim. Expedito, o mensageiro, num movimento apurado e impositivo, barrou-me o caminho. Estaquei, sem a mínima vontade de o contornar ou dar meia-volta. Não tinha pressa. De certo modo estava-me nas tintas para o tempo. Fez-me sinal com o indicador para que me aproximasse. “Não querias mais nada.” Não movi um músculo. Nisto, sem perceber como, numa fracção de segundos, chegou-se a mim, delegando-me ao ouvido o teor da missão. Desde então sou estafeta. Empenho-me como posso, mas falta-me calo nas abordagens. Cedo descobri a regra: posições marcadas? passagem de testemunho? esqueçam! não há quem aceite parar por um instante e escutar. Reina a lei da pressa e do umbigo. Não os acuso, apenas constato. Também eu, embora estafeta, sou súbdito fiel da lei. Porém, temo que haja aqui uma nuance. Dada a condição presente, a natureza do meu dever, cabe-me amordaçar a bocarra individualista que há em mim. Se não late em maior extensão é fruto deste esforço de domesticação. Sem um catalisador externo também eu, provavelmente, não tomaria consciência. Mas as nuances são, por norma, fios duvidosos com que remendamos o fundo dos bolsos... Tenho sempre presente o que me disse o mensageiro na sua segunda aparição: “cuida-te, não exijas, sê antes paciente; sabes bem como a vida é breve, um instante aqui e no outro já não; olha, vê: mãos escaldadas todos as têm...” Até certo ponto confio. Quem me diz que todos aqueles por que passo não foram também eles destacados? Mas logo penso que se assim fosse, segundo o teor das funções atribuídas, cada um de nós deveria, antes de mais, primar por um certo rotativismo, o que, à partida, pressuporia uma boa dose de cooperação externa. Coisa que precisamente não se tem verificado. Creio que não. Entregue a mim próprio, a bem dizer, exclusivamente a mim próprio, nada posso: vejo-os passar. Sempre de passagem. E nisto frusta-se-me a razão de ser. Digo bem, a razão de ser, em virtude do que me foi confiado e que falho em transmitir. Ninguém liga, ninguém olha. Quando muito, de passagem, levantam o braço e enxotam-me com a mão sinistra. Mas um dia, creio mesmo nisso?, quem sabe numa certa manhã, farei parar alguém, falar-lhe-ei e seguirei em frente também, acompanhado. Passaremos. E, por uma temporada, as mãos escaldadas afligir-me-ão menos.
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Quarta-feira, Janeiro 09, 2008

A patinada das Quartas

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É quarta-feira, dia de aglomerações na praça central. Mais do que em qualquer outro dia, as ementas aprimoram-se e é ver os pratos mais recheados que nunca e o tinto vertendo à discrição. Porquanto o almoço caia bem, o homem é dono de si e põe-se a caminho seja para o que for. Então é ver o passo, que ainda não vai nada mal, merecer uma curta pausa no botequim não muito longe dali. Do limiar da porta ao balcão, à falta de palmadinhas nas costas e de malta a que se juntar, ensaia-se uma pose circunspecta, de estrutura massiça. Os fragmentos seguem colados a tinto e aos temperos de há pouco. Abanca-se e estuda-se a panorâmica. Ninguém, a não ser desconhecidos. Não seja problema: bebe-se mais um copo, que quarta-feira é um óptimo dia para criar laços. Brinda-se às quartas, pois então, e, por momentos, crê-se tenazmente que não se está entre gente anónima. Pede-se outra bebida. E mais outra. Entre goles, os olhos orbitam em redor, em trajectória errática. A sensação de fastio vai sendo empurrada a álcool. Se a vida é caprichosa, alomba-se-lhe com remédio. Agora é só mesmo esperar que o olhar se turve um pouco... “Foda-se! Tudo na mesma...” O mundo, as coisas, os desejos, as pessoas, eu: tudo na mesma. “O mundo, tão grande... grande só para não irmos longe... um sonho sem vias de acesso...” O tacto comprova-o na lisura do copo: está-lhe vedada a autenticidade, a rugosidade da vida. “Que se foda...” Mais uma rodada para diluir o que ainda haja para diluir e nesse entremeio talvez se inove o brinde.
Ele é alguém que gosta de listas, anotações, registos, fragmentos dos seus dias e sentires. Começa a falar muito com o amigo do lado, inclusivamente sobre isso. Faz listas e registos relativamente a tudo: filmes, livros, músicas, viagens, quadros, acontecimentos, conversas. Até copy-pastes de entradas da Enciclopédia Britânica, não vá a memória tecê-las. Ou o diabo. “Puta que pariu o Alzheimer!...” Depois, num assomo não diluído, põe-se a nomear o que lhe parece inacessível. “O mundo é grande, muito grande...” Depressa estaca no ponto de partida. Aqui nada pode haver de enciclopédico: escasseiam os factos. O véu do que nunca teve estende a sua vasta e nostálgica sombra. «Tudo» é «o» substantivo: abrangente quanto baste. Unívoco no seio da indefinida heterogeneidade. É o seu elenco, o seu vocábulo mais restrito. “Balelas...” Tão simples quanto isto: não se recorda da pequena lista de há pouco. Sai-lhe do fundo das entranhas um longo bocejo. Estica os braços como quem pela extremidade dos dedos tenciona expulsar o torpor. Assunto arrumado: “Man, sou uma máquina registadora... podes crer que sou! Vai uma aposta em como mal chegue a casa vou anotar toda esta cena?” Do amigo do lado, nem um encolher de ombros. Nem tudo está perdido, se há quem em silêncio ainda tolere os monólogos de um bêbedo. Por fim sai, a remoer o assunto e a cambalear um pouco.
Transposto o umbral, estaca a dois ou três passos. A luz do dia atinge-o sem dó nem piedade. Leva as mãos à cara - ao tacto parece-lhe chapa amolgada. Semicerrando os olhos, lá retoma o mergulho na fértil actividade da rua. A multidão já cobre cada palmo de terra, mas não lhe apetece contrariar o movimento, o automatismo das pernas, e parar para tentar perceber o porquê da reunião. Vai furando, investindo contra os escolhos, esbracejando contra a corrente. O desnorte e a passagem aleatória pelas malhas do crivo conduzem-no às escadinhas do patíbulo. Uma luzinha no cérebro: “É forçoso subir”. É, de resto, a única porção de terreno livre. O ar torna-se mais respirável à medida que sobe. Sabe-lhe bem – há acasos assim -, como emergir à tona após longa apneia. Apesar do equilíbrio precário, evita apoiar-se à balaustrada. A multidão aplaude-lhe o esforço misto de laivo de dignidade. Ele regozija por dentro, sorri e retribui-lhes com uma vénia. “O senhor é um homem de coragem...” diz-lhe alguém, ao mesmo tempo que lhe enfiam um capuz pela cabeça e uma corda ao pescoço. Fica escuro e apertado, os sentidos desfocados e o coro de vozes como que abafado. “Merda, não devia ter mergulhado... ainda me pára a digestão!” Dá aos braços para chegar à superfície, mas um mecanismo qualquer é subitamente accionado. Fica sem pé, a patinar indefinidamente no ar.
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Terça-feira, Janeiro 08, 2008

Orfeu e as feras

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"Orfeu sabia cantar melodias tão suaves que até as feras o seguiam, as árvores e as plantas se inclinavam na sua direcção e os homens mais rudes se acalmavam." Pierre Grimal
O que vem na mesma linha dos que dizem que a música pode ter um poderoso efeito calmante. E este pressuposto deu azo, ao longo dos tempos, a pérfidas aplicações. Os nazis, por exemplo, serviram-se dela para os seus propósitos assassinos. Sabe-se que nos campos de extermínio, usavam a música na gestão do stress e do medo que antecediam o envio dos reclusos para as câmaras de gás.
Em "Sorstalanság (Sem Destino)" de Lajos Koltai (baseado na obra homónima de Imre Kertesz, que a seu cargo também tomou a escrita do argumento), ao contrário de outros filmes sobre a vida (ou ausência dela) nos campos de concentração nazis, não se viam por ali altifalantes a debitar música. Esta surgia apenas em off, como banda sonora (assinada por Ennio Morricone) acessível apenas a nós, espectadores. Isto pode querer dizer alguma coisa...

Da citação de Pierre Grimal também se pode inferir que lá por alguém possuir sensibilidade suficiente para apreciar uma boa peça musical, não será isso, nem por sombras, que fará dela melhor pessoa ou mais sensível ou sequer mais civilizada. Consta que as altas patentes nazis (e não só) eram grandes apreciadores de música. Não de todos os géneros, claro. Para dar um exemplo: detestavam jazz. Música degenerada, por decreto oficial. Também aqui a hipocrisia de quem destila falsos moralismos: alguns, em privado, certamente melómanos desse e de outros géneros. Não sei se Hitler figurava nessa categoria. O que se sabe é que ele vibrava com Wagner e quando podia marcava presença no festival de Bayreuth. E de facto tinha razões de sobra para o seu wagnerianismo febril.
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Das condições passivas

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Voltou-se para o criado: "Cinzeiro!". Ordem a que este prontamente reagiu escancarando a boca para receber o tufo de cinza. Se discretamente se voltasse, retirando um lenço do bolso, ouviria algo do género: "Não, não! Ora! Faça o favor de engolir..."
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Genes Vs Ambiente

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Mutações induzidas pelo factor tempo (bio-, sociológico). Peritos em diagnósticos diferenciais avaliam o nível de endorfinas, esse curioso parâmetro contemporâneo. Não perdendo qualidades, minguam no que toca ao tempo de meia vida, concluem.
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Retoques avulsos

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Alberto Caeiro, no poema XXXVI de "O Guardador de Rebanhos", elege a Terra/Natureza como «a» obra de arte definitiva - a única - que não necessita de retoques. Temos a sorte de participarmos da sua quase divindade (isto sem que entremos em misticismos), simplesmente deixando-nos ir e vivendo sem acalentar sonhos que perturbem o nosso sono. Qualquer retoque, mais que desperdício (de energia, de tempo), é sempre um empreendimento avulso.
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Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

John Cassavetes – Faces (1968)

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Rostos belos, uns mais que outros; no fundo, todos belos; uns mais marcados pela (enferm)idade; outros, imaculados, sem marcas visíveis, o que não invalida que as hajam. A juventude, a jovialidade, não necessariamente sinónimos, disputam-se. Aparentemente o elixir da juventude bebe-se na proximidade, na companhia de pessoas na flor da idade. Não é algo que se adquire, supostamente já lá estava: porém, adormecido. Acorda e é algo que salta à vista: no riso quase histriónico, na gesticulação sem regra nem compasso. Por exemplo, na noite em que Richard Forst conhece Jeannie ou na cena do clube nocturno em que Maria Forst e amigas se deixam seduzir pela vitalidade do jovem Chet e se decidem por uma sequela, em casa, que a festa não podia morrer ali.
A abordagem é por vezes crua de tão directa, como se estivéssemos não apenas a assistir mas directamente envolvidos nas conversas e discussões familiares. Por momentos somos espectadores cuscando os vizinhos do lado. Para esta pretensa proximidade talvez contribua o facto de o registo cénico e as performances dos actores não enjeitarem as do mundo do teatro: é um filme onde tudo vibra: corpos e diálogos. A clausura, os ambientes fechados também dão nota disso. É justo dizer que em Cassavetes, até certo ponto, cinema e teatro irmanam-se, contaminam-se (no bom sentido do termo). E este filme em particular até resulta da adaptação de uma peça do próprio Cassavetes. Além de planos cerrados, com a câmara colada à pele, o filme conta com sequências de extrema mobilidade, seguindo as personagens obsidiantemente pelas divisões. É nessa superfície do corte e do
close-up versus mobilidade, mais do que na voracidade das vozes, que se vê algo de novo a irromper: um mal-estar, uma inquietude, que só podem ser dissipados por tracção e movimento.

As razões do mal-estar que divide o casal Forst não são totalmente explicitadas. Podemos tentar adivinhar o óbvio, correndo o risco da banalização: o cansaço acumulado ao longo de vários anos de vida em comum; Maria, a esposa entediada, sub-valorizada; Richard, o director-chefe de uma empresa importante, colidindo com a pacífica vida doméstica. Ao conhecer Jeannie (Gena Rowlands, em mais um grande desempenho), Richard (John Marley) encontra não apenas um escape, não apenas diversão e certa dose de folia, mas uma espécie de alma gémea. Não sendo pessoas de carpir mágoas por aí além, preferem antes dançar, cantar, beber. Elegem o riso como melhor remédio e nisso não poupam os pulmões: são ruidosos, quase estridentes, como para afugentar os espectros que os mortificam durante o dia.
Luz e sombra em tensa e rica coabitação no olhar rasgado de Gena Rawlands, quanto a mim um dos rostos mais inquietantes que, bem para lá de telas e ecrãs, povoam o meu imaginário.
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Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

O amigo de K.

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Max Brod
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É errado pensar-se que Kafka sacrificou a sua existência em prol da escrita. Não houve sacrifício, pelo contrário, segurou-se a ela como a uma tábua de salvação, ainda que no fim ele não se quisesse salvar: a doença minando-o e ele recusando mudar-se para receber tratamento mais adequado...
Como pode alguém biografar um autor que não teve propriamente vida? Pietro Citati convence-nos de que é possível. Citati mergulha nas profundezas dessa alma singular, tomando por ponto de partida a obra (ficção, diários, a imensa correspondência), para depois lhe extrair vívidos lampejos em linhas impregnadas de lirismo. Em última análise, à ficção que foi a vida de Kafka, Citati responde com ficção. E quem nos diz que um tal retrato não é menos válido e fidedigno que as elaboradas biografias convencionais?
Sendo Kafka um dos nomes mais influentes da literatura moderna, é tanto mais surpreendente pensar que hoje poderia estar remetido ao mais puro esquecimento. Pior: como se nunca tivesse existido. Não fosse a recusa de Max Brod em cumprir a vontade testamentária do amigo e as célebres páginas d’ O Processo, d’ O Desaparecido, etc., todo um legado civilizacional, nunca teriam visto a luz do dia; teriam antes conhecido o poder voraz das chamas ou, na melhor das hipóteses, ter-se-iam perdido no meio do pó de uma qualquer arrecadação.
Como é que alguém que dedicou grande parte do seu tempo e esforço a um projecto, delega num amigo a tarefa inglória de o erradicar da memória terrena? Nas pretensões de alguém que sempre primou pelo anonimato é suposto crer que se reserva ao mesmo desígnio póstumo? Não intuíra Kafka, ele que fora incapaz de se desembaraçar do trabalho de uma vida, que Max Brod jamais aceitaria condená-lo ao anonimato? Se assim primara em vida, não tentaria Max resgatá-lo para a posteridade, justificar-lhe as lutas, as desistências, as dores, e também desse modo manter vivo o seu nome entre os seus? – o seu nome inteiro e não um mero K. como o dessa personagem anónima, minúsculo grão engolido pela
intangível e poderosa engrenagem. Um amigo é um amigo, mesmo que isso envolva a desobediência ao mais derradeiro dos pedidos.
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We Hunger

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A ravenous greed
for a brood to feed
a lusting spawn
on a weekened fawn

do you hunger for this
hunger for this

sucking leaches feel the need
sucking dry unsated stomach pops

Sharpened knives with flying sparks
sagging bodies with stretch marks
and your belly aches

do you hunger for this
hunger for this
hunger for this
bled white with avarice

As the rust creeps
corrosion seeps a rotting seed

Eat me
feed me
with your beltching foul breath
your destructive kiss death

do you hunger for this
hunger for this
hunger for this
Just the taste of a sweet kiss

Shanghai'ed on a locust flight
the thirst from a vampire bite
fills the emptiness inside
consuming everything green-eyed

We hunger
We hunger

do you hunger for this
hunger for this
the bliss of a sweet kiss
hunger for this
hunger for this

We hunger
We hunger

Siouxsie and the Banshees, Hyaena (1984)
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Domingo, Dezembro 30, 2007

"O Capacete Dourado" (2007)

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"É uma história de amor e não há um beijo, há um beijo soprado, perdido logo no início da sequência da festa. Isso é uma coisa que inquieta muita gente." Jorge Cramez.

Apetece-me dizer que é o mais belo filme português depois de “Transe”.
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Maria Madalena

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"Mary" de Abel Ferrara

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“Mary” de Abel Ferrara é, até certo ponto, o que se costuma apelidar de um filme dentro de um filme. Juliette Binoche é Marie Palesi, uma actriz que desempenha o papel de Maria Madalena (uma das mulheres que ao terceiro dia após a crucificação se dirige ao sepulcro de Jesus e testemunha o seu desaparecimento). Durante as filmagens algo toca profundamente Marie Palesi. No fim da rodagem separa-se dos restantes elementos e enceta a título individual uma peregrinação, tanto exterior como interior, por Jersuslém. Uma busca inspiradora, pela coragem necessária para romper com o estado das coisas e se desligar de uma vida apesar de tudo confortável, certamente plena de desafios e experiências ricas, mas ao fim e ao cabo insatisfatória, incompleta, desligada da sua voz e vontade mais íntima. Tanto mais inspirador porque rupturas, à partida, garantem tudo menos um ponto de chegada e ao desprendimento das amarras opõem-se forças de bloqueio por norma paralisantes.

Sobre Maria Madalena, mesmo quem pouco ou nada saiba sobre a matéria (como eu), encontra aqui assunto de reflexão. Perceberá, até certo ponto, porque motivo, ao longo dos séculos, a Igreja, se não a considerou uma verdadeira ameaça, pelo menos a encarou com acirrada desconfiança. Em hipótese, Maria Madalena, a figura histórica, a mulher, parece-me antecipar em valor as questões de uma contra-reforma: a busca de Deus sem intermediários; ninguém a interpor-se entre o «eu» e o «divino»; a busca do «divino» em nós e nos outros. E por aqui, muito justamente, indica-nos também o caminho para a igualdade entre sexos, tendo-lhe valido, infelizmente, múltiplas inimizades que a relegaram, quando não ao esquecimento, a um papel mais que subsidiário: desde Pedro, passando pela Igreja de que foi fundador, às tradições vigentes e perpetuadas ao longo dos tempos.
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Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

Prometeu agrilhoado [2]

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Gustave Moreau, Prometheus (1868)

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Por castigo desciam os abutres pela matina para lhe bicarem o fígado, lhe dilacerarem as entranhas; com a noite chegavam as tréguas, regeneravam-se os tecidos, cauterizavam-se as feridas para que no dia seguinte se cumprissem as mesmas façanhas. Mas porque raio o fígado e não outro órgão? É que talvez o mito até saiba uns elementos de fisiologia (e possivelmente de noitadas também): dos diversos órgãos é precisamente o fígado o que mais resiste até às últimas.
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Prometeu agrilhoado [1]

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Heinrich Friedrich Füger, Prometheus brings Fire to Mankind (c. 1817)

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Prometeu roubou do Olimpo para dar aos Homens: luz (do conhecimento) para que as suas vidas não fossem só penumbra. Para que não fossem meras traças rodopiando nervosamente, entrechocando-se, em torno da primeira tocha que alguém cunhasse como verdade. Como verdade única. Prometeu: das primeiras divindades a dar o coiro pela humanidade. Mas também, um exemplo em como fatalmente se habilita ao castigo quem ousa contrariar as teias do obscurantismo, ou, de algum modo, iluminar e desempoeirar as mentes subjugadas. Séculos passaram, nobres espíritos agonizaram, até que se apreendesse minimamente a lição. Mas ainda hoje, seja onde for, não se pode dizer de ciência certa que seja um dado (e um direito) adquirido. É antes um eterno duelo.
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Sonâmbulo

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Sonâmbulo, desaproveitas os raros cometas que se te atravessam. Desejos de que te recordes atrai-los ao vazio e já nada formulas ao olhar para o céu.
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Segunda-feira, Novembro 05, 2007

Do desconsolo

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Não a via há dois três anos. Era noite de luar, a rua estava deserta, silenciosa, e nada fazia crer num desses encontros do acaso. Vi-a assomar ao passeio, aparição tão frágil que ninguém diria ser ela a dona dos seus passos. Levava pela trela um cão, irrequieto, cheio daquela despreocupada genica dos animais de pequeno porte. Causou-me impressão a força motriz do seu lento avançar parecer advir exclusivamente do pequeno animal - fiel companhia em noites assim, pressupus (e como mais tarde me afiançaram), desde que o marido falecera. Estava estacionado, a fazer tempo não sei bem para que fim, numa zona pouco iluminada pelas frouxas lâmpadas de sódio, pelo que hesitei um pouco em dar sequência ao que o acaso proporcionava. Depressa senti que era o mínimo que lhe devia, eu que miseravelmente tenho premiado pela ausência. Então, baixei o vidro do carro, cumprimentei-a, baixinho, para não a assustar. De uma lividez espectral avançou em minha direcção, intrigada, não dando o mínimo sinal de me reconhecer. Os olhos, trémulos de tristeza, esforçaram-se por me focar na penumbra. Depois: um lampejo, subtil, que lentamente se desvaneceu. Cumprimentámo-nos; conversámos um pouco. Durante todo esse tempo não me ocorreu ligar a luz de presença ou sequer sair do carro. A delicadeza, os modos - impolutos, intactos -, como sempre nela reconheci, a contrastar com os meus tiques lunares, desapegados do tacto e do saber estar. Ainda assim, dadas as circunstâncias, o clima não foi sem empatia, foi até mesmo propício a mútuas palavras de apoio e afecto. Eu mais atabalhoadamente que ela, medindo-as, receoso, sem no entanto desejar trair a sinceridade do que me afluía, perante a incomensurabilidade da sua dor. Ao cabo de um quarto de hora, despedimo-nos. Seguiu rua acima, meio combalida, tal como há instantes a vira surgir. Qual cometa, tragou-a, por fim, o negrume da noite; tendo o seu rasto, lustroso, duradouro, ficado indelevelmente impresso em mim. Algum tempo depois, invadiu-me, de novo, o silêncio da rua. Desta feita, um silêncio em nada sereno, pelo contrário, em frontal colisão comigo. Recostei-me no banco, atravessado por mil perguntas sem resposta, por mil repreensões. Apesar do seu sentido obrigado à despedida - parecendo contestar as minhas dúvidas -, varou-me a certeza de não existirem palavras capazes de uma pontinha de consolo.
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Fronteiras

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Desconhecidos (re)pousam o olhar uns nos outros. Prolongam-no até às últimas. Na expectativa de que desse limiar se instale outro sentimento que não o desconforto.
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Domingo, Novembro 04, 2007

O poeta

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Afastas-te de mim, ó hora.
O bater de tuas asas faz-me feridas.
Mas: que hei-de eu fazer da minha boca agora?
e do meu dia? e das noites compridas?

Não tenho amada, nem casa,
nem lugar onde viva.
As coisas, a que a minha alma se casa,
enriquecem e gastam a alma viva.
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Rainer Maria Rilke
(tradução de Paulo Quintela)
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Terça-feira, Outubro 16, 2007

At each other

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Markus Muntean & Adi Rosenblum, We Look At Each Other... (2002)
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Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Prós confins

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Tornara-se tão anti-social que a Greenpeace andava a sondá-lo para uma missão solitária aos confins dos mares do Japão. Saltava à vista que o seu perfil se adequava sobremaneira ao lugar. Tanto assim que fosse qual fosse o revés acabaria seleccionado. Mesmo se por hipótese constasse da sua ficha de inscrição o seu ávido apetite por barbatana de tubarão.
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Domingo, Setembro 30, 2007

Asa-delta

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M.C. Escher, Castle in the air (1928)

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Ar nuvens povoaste de castelos.
Com eles ruíram teus alicerces.

Ferido com precisão, vegetas.
E teu sono não te há-de curar.
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Quarta-feira, Setembro 19, 2007

Sinal horizonte

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David Ligare, Penélope
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O tempo passa, deixa suspensas: palavras, intenções. Dar sinal exige-nos um código de improvável ajuste e o fumo não é nosso domínio. Ser pegada no areal é coisa de peregrino arribando em extensa ilha. Nem espuma de aproximação, que essa evita-nos os pés. Baixar âncora e recolhê-la de seguida: também aqui não se está bem. Distância, solidão: elementos que se entranham, em qualquer parte. Sobra a memória de um horizonte, a perder de vista. Um fio de espera que por instinto contemplamos: de tão virgem, o globo continua desafiando. Frente ao olhar, cai e levanta-se, sem interrupção, um mar de afectos, ora calmo, ora revolto, cuja única razão de ser é um eterno deslizar por entre dedos. Crer que se pode suster uma porção e sentir o todo é a intuição de qualquer banhista. Fruição e partilha: aspergi-la à nossa volta como maresia. Que nos dilate os pulmões e aos da nossa estima. Vacila a forma de o tornar possível: parece não fazer sentido, o código. Parece nem existir. Sem cartilha, entregues à dúvida e ao improviso, ao fundado receio das sensações - corpúsculos de éter na praia. Estendidos na toalha, no limiar da volatilização, quase sintonia com a seiva animal. Livres, rebeldes, arde o sol sobre nós. Arde como só as ilusões: apagam-se e renovam-se todos os dias. Magma por demais longínquo, mas sempre latente em cada poro. No sussurro da respiração a voz sábia, o valioso ensinamento de um novo inspirar. Inspirar, expirar e inspirar de novo.
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Terça-feira, Setembro 18, 2007

Antas

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Calcetas as ruas, firme e alheado no cima dessas antas. Algumas penas no ventre, é quanto levas. Oscilam ao vento. Para teu azar deste em avestruz. Sem ginástica dorsal para enterrares a cabeça nos canteiros; com visão periférica suficientemente apurada. Está certo: é tramado. Mas não é o fim do mundo. Estranhos aproximam-se de ti, acompanham-te o passo. Ficas desconfiado. Não tentam desequilibrar-te, não te querem mal, nem sequer esperam o momento de te ver tombar. O teu instinto é uma parabólica fora de prazo, que continua a dar sinal: falseado. A única questão é de falta de sensibilidade: tua. Então não vês que atrapalhas um pouco o skyline? Vá, desce daí e sintoniza um canal de jeito.
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Segunda-feira, Setembro 17, 2007

Escaleno

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Steve Kloves, The Fabulous Baker Boys (1989)
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Susie Diamond, a inevitável escolha para o vértice deste triângulo escaleno. Um filme com momentos fulgurantes: Susie cantando deitada sobre o piano, uma figuração da mais pura sensualidade; a distância estudada, no limite da dissimulação, das evasivas, entre Susie e Jack Baker (Jeff Bridges), o oculto receio de cair nas garras e dependência do outro, a secreta curiosidade pelos ínfimos objectos: perfumes, artigos de barbear; no rosto resignado, impassível, de Jack, a frustração de todo um talento desbaratado anos a fio em actuações menores; o clube de jazz enquanto espaço de exorcismo, o templo onde credos não se vendem nem se traiem, o reencontro com a verdadeira natureza da sua arte. Há quem, com as devidas ressalvas, o qualifique como um Jules et Jim à americana. Hoje, às 21:00 no Lusomundo Gallery, podem tirar teimas.
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Um acto de vontade

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Éric Rohmer, Le Genou de Claire (1970)
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O Joelho de Claire e o encanto das angulosidades. Jérôme, na impossibilidade do todo, sublima na carícia o gesto saciador. O acto que maior dose de coragem de si exigiu, confessa. Ou como também diz, não sem pretensiosismo, o triunfo da "vontade pura". Expressão ambígua, de dupla via, entre consumação última de uma acção e o resguardado teor das intenções. A lembrar-me o que já o casto Schopenhauer dizia a propósito do mundo e suas representações: no fundo, o que alicerça tudo isto e nos faz andar não é nada mais nada menos que a vontade (leia-se desejo).
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