quinta-feira, agosto 18, 2016

Sweet Spot





Oh the sweetest spot
When it's gone, it's gone
Don't make me suffer for that
Just to love me
A final dividend

Between the hurt and the tell of song
Between the flesh and the fondest wrong
There is a gardless state
Where the real and the dream may consummate

Oh the sweetest spot
When it's gone, it's gone
Don't make me suffer for that
Just to love me
A final dividend

Between the wound and end
Between the break and the mend
Between the world and the get
Between bone dry and the dripping wet

It's in the holy ghost of air
Between two hands held in prayer
There is a gardless state
Where the real and the dream may consummate

Oh the sweetest spot
When it's gone, it's gone
Don't make me suffer for that
Just to love me
A final dividend



Vestigial

Um apêndice apenas se faz notar quando infecta. Em tempos de solidão, procuremos em nós o curandeiro capaz de reduzir a amargura que nos submerge a um sopro mínimo, vestigial. Não nos assiste o direito de contaminar «o outro».


terça-feira, agosto 09, 2016

Who'll mend this broke beat star







Who'll mend this broke beat star
Who's strength do I speak of
Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning

Who's words that I spoke now storm
I keep it turning
It's climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deeper

Climbing deep burning
Climbing deeper
Kinda deep burning



segunda-feira, agosto 08, 2016

Speechless






"Tender we fall
Quiet and alone
Tired and gone, just speechless
Speechless
Tired and gone"



sexta-feira, agosto 05, 2016

Glass Animals - Hazey







segunda-feira, julho 25, 2016

Mecca






All we want is to feel that feeling again
Just a drop on the lips and we're more than equipped
There is some thirst that's gotta be quenched, yeah
All we want is to feel that feeling again
We didn't reach a high it was always inside
We just coaxed it from the place it would hide.

We move in fear, we move in desire
Now I know how you feel.
I'm a pilgrim, you're the shrine to
All the lovers that loved before us
And breathed in this ether.
Where the body goes the mind will follow soon after.

Cause all we want is to know the vivid moment
Yeah, how we feel now was felt by the ancients
Yeah, all we want is to know the vivid moment
Just surrender your limbs to my every whim
Now we're lovers, we are cartwheeling.

We move in fear, we move in desire
Now I know how you feel.
I'm a pilgrim, you're the shrine to
All the lovers that loved before us
And breathed in this ether.
Where the body goes the mind will follow soon after.

We've a Mecca now, weave a Mecca now, no less
To hold the other end of the thread. Hold on-

We move in fear, we move in desire
Now I know how you feel.
I'm a pilgrim, you're the shrine to
All the lovers that loved before us
And breathed in this ether.
Where the body goes the mind will follow soon after.

'Cause, all we want is to feel that feeling again,
Yeah, all we want is to feel that feeling again.



quinta-feira, julho 21, 2016

Nothing's gonna hurt you baby





Whispered something in your ear
It was a perverted thing to say
But I said it anyway
Made you smile and look away

Nothing's gonna hurt you baby
As long as you're with me you'll be just fine
Nothing's gonna hurt you baby
Nothing's gonna take you from my side

When we dance in my living room
To that silly '90s R&B
When we have a drink or three
Always ends in a hazy shower scene

When we're laughing in the microphone and singing
With our sunglasses on to our favorite songs



terça-feira, julho 19, 2016

Dar-se


"Talvez o amor fosse o enriquecimento mais alto, um dador de ser"

Julio Cortázar, Rayuela



Rua-sonho


"Tinha de voltar à superfície: à rua-sonho", diz Benito Profane, o "rapagão tipo ameba, mole e gordo", caçador de crocodilos.

Thomas Pynchon, V.


terça-feira, dezembro 22, 2015

Paixão


Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais lonquínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luís Miguel Nava



sexta-feira, dezembro 11, 2015

We can talk by the river





São de Perth, lá nas Austrálias. E só por aqui já me parecem tão boa gente. Para mais, têm um pé dentro e outro fora dos Tame Impala. Cá para mim são todos irmãos e moram na mesma casa. E tal como estes, uns mãos largas. Poucas vezes vi quem orientasse tão bem o pessoal em carrinhas pão-de-forma multicores por meio de um trilho de psilocibinas. Exagero um pouco, mas a culpa é deles: aventurem-se pelos vídeos. Esta música em particular tem-me levado em viagem. Por rios, por mares: «we can talk by the river / we can walk right out to the sea». São tantos os cenários e modulações até àquele culminar fantasmático de acordes de guitarra (que ressoam e perduram uma fracção de tempo, o suficiente para gerar a sensação de que alguma coisa, algures, não sei onde, se despenha, se corta... para dar origem a outra coisa; como se alguém premisse o botão de uma serra eléctrica para logo afrouxar a pressão - ok, aqui devo ter andado a fazer geocaching e encontrei alucinogéneos); acordes que por sua vez vão fazendo caminho para o final, para o coro quase sobrenatural de vozes, como que a arrancar do além um segredo oculto: «it took you all the time to know». E lá atrás, nunca esquecidos, estes dois versos: «we can talk by the river / we can walk right out to the sea». Do mais simples que há e que contudo não cessa de ecoar aqui dentro. Um rio onde se poderia ficar à conversa ou seguir até ao mar. Lembra-me que há coisas de que sou grato à vida, como a sorte de ter um rio - e muito mais que um rio - a que posso chamar casa. A de ter um mar que ao longo de anos foi esculpindo amantes em rochas à beira-mar. E não precisei de ir e vir do além para saber desta minha gratidão.



segunda-feira, dezembro 07, 2015

Curious about curiosity




Por que é que se deve ler Alberto Manguel? Porque, entre muitas boas razões, nasceu em Buenos Aires. Porque quando era jovem leu para Jorge Luís Borges. Porque é um grande amante de livros e co-autor de uma pérola como o "Dicionário de Lugares Imaginários". Porque é um escritor que nos contagia com a sua curiosidade insaciável, como bem demonstra uma das primeiras frases de "Uma História da Curiosidade": «I am curious about curiosity.». E que prossegue assim: «One of the first words that we learn as a child is why. Partly because we want to know something about the mysterious world into which we have unwillingly entered, partly because we want to understand how the things in that world function, and partly because we feel an ancestral need to engage with the other inhabitants of that world, after our first babblings and cooings, we begin to ask “Why?” We never stop. Very soon we find out that curiosity is seldom rewarded with meaningful or satisfying answers, but rather with an increased desire to ask more questions and the pleasure of conversing with others. As any inquisitor knows, affirmations tend to isolate; questions bind. Curiosity is a means of declaring our allegiance to the human fold.»



sábado, dezembro 05, 2015

Tracks




(John Curran "Tracks", 2013)



Uma pequena caravana no deserto,
assim as nossas vidas.
Com raros oásis a suavizá-la.



BFF


Até agora um guilty pleasure mantido secreto e fechado a sete chaves. A chicotadas de assessores? Mas eis que Paulo Portas já não consegue conter o seu desgosto e se assume. Ficámos todos a saber que o Paulinho lamenta profundamente não ter nascido na última década para poder usar livremente o jargão sms no recreio com os coleguinhas.


Black Friday



(Ren & Stimpy)

O Black Friday (uma cena marada importada dos Estates há uns bons anos a esta parte) já lá vai. Mas para memória futura aqui fica o rescaldo de um episódio. Os olhos esbugalhados e meio alucinados do sr. Ren, continuamente voltados para mim e para a minha colega, bem que deviam ter-me deixado de sobreaviso. Já nem tanto o pormenor de se ter chegado ao balcão sem devolver o nosso cumprimento. (Sim, um elementar «bom dia» parece ter sido altamente taxado e muitos de nós, que de boa fé ainda para aqui andamos a distribuir bons dias e tardes e noites, simplesmente não nos demos conta e não fazemos a mínima do quanto isso nos vai sair dos bolsos. Adiante, que eu acredito que o Centeno irá reverter isso em breve). De acordo com o sr. Ren (assim nomeado em homenagem ao «emotionally unstable chihuahua» [fonte wikipedia] de olhos esbugalhados, da série Ren & Stimpy), não passaríamos de uns provincianos desrespeitosos ao nos termos associado a uma campanha promocional tão infame como o Black Friday. Muito ao início ainda julguei que a indignação do sr. Ren viria de um súbito aneurisma anticapitalista e isso, convenhamos, dependendo da severidade, ainda vá. Mas nada disso. O que na presente situação definiu a linha vermelha (não a paulo-portiana, antes fosse) que o catapultou para uma deriva meio quixotesca foi "tão só" o nome da coisa. E porquê? Porque duas semanas antes, no fatídico 13 de Novembro, uma sexta-feira 13, uma sexta-feira negra, haviam ocorrido os atentados de Paris de que todos ficámos a par e todos lamentámos com pesar, incredulidade e indignação. Pois bem, duas semanas depois, ali estavam estas duas alminhas ao balcão, quais vendilhões do templo, a dar a cara a uma campanha (não acordada nem decidida pelas tais alminhas) e que, para nossa estupefacção (eu devia era estar mesmo com um ar aparvalhado), estariam supostamente a denegrir a memória dos que haviam falecido e sido feridos nessa noite e a relegar à indiferença as dores dos familiares. Em França houve de facto uma vaga para passar a designar o Black Friday por outra coisa. Compreendo e respeito os motivos, o sofrimento, as susceptibilidades envolvidas. E por lá passou-se a chamar o dia de XXL Days. Mas aqui não. Aqui na província, insensíveis, aferrámo-nos ao bom e velho nome. Aqui não houve nada de nada. Sequer uma só notícia de um tuga em solo nacional a manifestar algo de semelhante a solidariedade. Compreendo agora que a boa consciência e o sentido de justiça do sr. Ren, o auto-proclamado guardião moral da memória das vítimas, apenas clamava por paz e que neste contexto adverso, por nós fomentado, essa desejada paz só poderia vir na forma de um XXL Days. Sim, com um nome destes (ou outro) já ele poderia comprar sem mácula os dois livros que trazia na mão e que acabou por largar enojadamente. Por mim, sinceramente, que se foda o Black Friday. E senhores como o sr. Ren que se julgam luminárias e autoridades morais acima dos pobres conterrâneos.



sexta-feira, dezembro 04, 2015

In media res


"Todo o começo, afinal de contas, nada mais é que uma continuação, e o livro dos eventos está sempre aberto a meio."

Wislawa Szymborska


Amor Heróico


"O mundo só pode ser salvo de inevitável decadência por um acto de Amor Heróico (...) Na prática, Amor Heróico significava foder cinco ou seis vezes por noite, todas as noites, com muitas acrobacias e golpes de luta livre meio sádicos à mistura."

Thomas Pynchon, V.


quarta-feira, dezembro 02, 2015

Kafkiana autofágica ou as partidas que a mente prega




(de Christophe Huet)


Um bicho qualquer mordera-lhe a perna. Porém, ninguém com tino haveria de o confundir com um bife. Por que raio então lhe passara um tal impulso pela mioleira? Gregor Samsa percebeu enfim porquê. E as lágrimas salgaram-lhe a refeição.



Porque a vivemos


(...)

"aprofundada por trabalho honrado, aquela morte própria
que tanto precisa de nós porque a vivemos,
e da qual nunca estamos mais próximos do que aqui."

(...)

Rainer Maria Rilke
trecho do poema "Por Wolf Conde de Kalchreuth"
(tradução de Paulo Quintela)



Guerra dos mundos


"Há um mundo, o mundo sensível, que é filho da fome, e outro mundo, o ideal, que é filho do amor"

Miguel Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida



segunda-feira, novembro 30, 2015

And always find a way to meet




"It's been a while
Since the last time
We were breathing the same air"

(...)

"Come close to me now... darling
I wanna smell your hair
I remember your body
But your soul
I do not dare
To recall, to recall"



sexta-feira, novembro 27, 2015

Pequeno teste de aptidão (para a loucura)


Ao final da noite estivemos a expôr os livros para o Black Friday (que é hoje, precisamente). Só livros velhos e ratados por variada fauna que é melhor não enumerar. Livros órfãos de mãos e afectos, vindos directamente das catacumbas esquecidas de algum remoto armazém de localização já de todos esquecida. Por algum estranho desígnio (ou não) cá vieram parar. A revolta contra anos de confinamento acciona poderosas engrenagens. No mínimo prevemos para amanhã uma horda de leitores logo à hora de abertura, que se lançará predatoriamente sobre eles e não se poupará em sobrancelhas alçadas e cotoveladas para os adquirir. E isto, com o avançar das horas, parece-me que é já um desses órfãos a sonhar.



Agenda preenchida com testes e eu não sabia


"Ao sonhar, podemos testar a nossa aptidão para a loucura de forma gratuita. Suspeitamos que toda a loucura não passa de um sonho que se instalou na vigília."

Julio Cortázar, Rayuela


segunda-feira, novembro 23, 2015

Vestiges of springs and falls, long gone






"Cracked car parks, abandoned malls
Cheap guitars, and KC halls
Vestiges of springs and falls, long gone
Freaks and friends that I once knew
Will they smile like they used to
Will they still be there for you, at all
Even the old growth trees
Even the air we breath
It's hard to know if we can rely on anything

Black mold basements and fenced in yards
Rhapsodizing in packed out cars
One can hope it's in the cards for you
But this place is like a column of stone
Many moons for it to grow
Phases they will come and they will go
And with each passing day
It becomes easy to say
The more things change more things stay the same"



sábado, novembro 21, 2015

Says heaven





"Ask that girl where she came from
if she says heaven it's on
so give her your best now
come on just, give her your best now"



Our Best


"and all those organs inside are singing for you
in a foreign language"

Peter Broderick, Our Best



sexta-feira, novembro 20, 2015

And it's alright





"seven shooting stars in one night
the water and sand in our eyesight
the rocks in our hands preparing for flight
the lack of sleeping but it's alright"



You will flourish like a rose in June







terça-feira, novembro 17, 2015

If I don't get to see you, at least I can feel you





"I'm calling for an angel
To bring me a dark night, to bind me
In my daydreams, darkness finds me
It takes me somewhere I need to be
If you can't see me
At least you can feel me"



domingo, novembro 08, 2015

Por sonhos tolos de metamorfose



As estrelas nascem no teu olhar
dizem-mo à janela, lá no alto,
em todas as noites de ausência.

As palavras com que te quero chegar e não sei
num braço enorme que me rasga o peito e se estende
e fura a tela da noite na ânsia do teu corpo.

Vogo por sonhos tolos de metamorfose
seja eu um som, brisa ou animal,
brilho de metal fundente,
aresta de ferro por onde deslize
a polpa de um dedo teu,
qualquer forma que não podendo ser eu
me aproxime de ti.

Sonho telhado a telhado
e com destras patas de veludo,
mestres conhecedoras do caminho
para a tua casa.



sábado, novembro 07, 2015

Belle And Sebastian "Allie"


(...)

Allie, what would you do?
With your fears, because they're adding one by one
And your mountains are obscured behind the sun
And the person that you could be is crumbling into dust.
You're in the mess 'cause you thought
You'd be someone else
'cause the tricks in your head are a lie

(...)

Allie, hand on your head
And a prayer from the soon-to-be-closing library
And if you looked from here, you would surely see
There's a softness in your heart, there's a poetry to come

(...)



terça-feira, novembro 03, 2015

Encontrado por acaso


"Estar vivo é estar perdido a procurar o mapa que nos orienta na vida"


Gonçalo M. Tavares "O Torcicologista, Excelência"





segunda-feira, novembro 02, 2015

À portée de la main


"une des seules pures joies de la vie sur cette terre consiste à s'installer, seul, dans son lit, avec à portée de la main une pile de bons bouquins et un paquet de tabac"

Michel Houellebecq "Soumission"



domingo, agosto 23, 2015

Feast





Omnívero com preferências bem demarcadas, pois que não vai muito com os vegetais. Não lhe inspiram assim tanta festa. Inteligente e sensível como é, é precisamente com um dos verdinhos que acaba por apadrinhar a maior das festas.


sexta-feira, agosto 21, 2015

O verdadeiro amor


O verdadeiro amor. É normal, é sério, é prático?
O que é que o mundo ganha com duas pessoas que vivem num mundo delas próprias?

Colocadas no mesmo pedestal sem mérito nenhum, extraídas ao acaso entre milhões, mas convencidas que era assim que tinha de ser - em prémio de quê? De nada.
A luz desce de qualquer lado.
Porquê nestas duas e não noutras?
Não é isto uma injustiça? É sim.
Não é contra os princípios estabelecidos com diligência e derruba a moral no seu cume? Sim, as duas coisas.

Olha para este casal feliz.
Não podiam ao menos tentar esconder-se, fingindo um pouco de melancolia, por cortesia com os seus amigos?
Ouçam como riem - é um insulto a linguagem que usam - ilusoriamente clara.
E aquelas pequenas celebrações, rituais, as mútuas rotinas elaboradas - parece mesmo um acordo feito nas costas da humanidade.

É difícil prever a que ponto as coisas chegariam se as pessoas começassem a seguir o seu exemplo.
O que aconteceria à religião e à poesia?
O que seria recordado? Ou renunciado?
Quem quereria ficar dentro dos limites?

O verdadeiro amor. É mesmo necessário?
O tacto e o silêncio aconselham-nos a passar por cima dele em silêncio, como sobre um escândalo na alta roda da vida.
Crianças absolutamente maravilhosas nasceram sem a sua ajuda.
E ele chega tão raramente que nem num milhão de anos conseguiriam povoar o planeta.

Deixem que as pessoas que nunca encontraram o verdadeiro amor continuem a dizer que tal coisa não existe.

Com essa fé será mais fácil para eles viver e morrer.


Wislawa Szymborska



Li algures


Li algures que a poesia não salva ninguém.
Que atirada ao mar e ao vento, não impede
ninguém de se afogar ou estatelar.
Também já li de uns que a poesia
é uma necessidade. De outros um ócio.
Ela é tantas coisas para tanta gente.
Morta para uns. Viva para outros.
Há da que engorda, da que pede bolachas e chás.
Há da que desfere cortes que nem tesouras
invisíveis.
No final há até quem assobie para o lado
como quem vê tédio em todas as esquinas.
Outros a desenrodilharem fios de percepção
e a desejarem perder-se por mais e más ruelas.
Há quem exclame muito, quase na iminência
de bater no peito ou arrancar cabelos.
Há também quem feche os olhos em silêncio
sem saber muito bem para onde vai.
Há poesia que nos segreda o quanto somos cegos.
E pequenos. E sempre órfãos de afecto.
A boa poesia talvez seja aquela que no-lo diz
com voz amiga, sem maldade.
Talvez não haja boa, nem má, nem assim assim.
Para quem a sorte não desenhou um ombro,
abrem-se assim janelas para outra luz.



Não Deixeis um Grande Amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo


José Tolentino Mendonça, in 'Longe não Sabia'



segunda-feira, agosto 17, 2015

Instantâneos de luz


Gritinhos de alegria, pernas como que a dar aos pedais no ar. O semblante radiante de um pai a segurar o filhote ao colo à altura de um secador automático. Bracinhos esticados a descrever rotas controladas, ora de aproximação ora de afastamento à corrente de ar. Mãozinhas num frenesim de abre e fecha a tentar agarrar e conter o misterioso sopro quentinho.



sexta-feira, julho 31, 2015

Assumidamente lamechas


Por vezes ocorre-me pensar nas pessoas que por ali andam, na livraria, de mesa em mesa, de estante em estante, como ociosas borboletas ou abelhas obreiras a pousar de flor em flor, tacteando as capas, vibrando com as cores, aspirando o néctar dessas páginas sem fim.



quinta-feira, maio 07, 2015

A higher form of possession


"Why do we kiss people? At one level, merely to generate the pleasurable sensation of rubbing an area of nerve endings against a corresponding strip of soft, fleshy, moist skin tissue. However, the hopes with which we approach the prospect of an initial kiss typically extend beyond this. We seek to hold and savor not just a mouth but an entire beloved person. With the kiss, we hope to achieve a higher form of possession; the longing a beloved inspires in us promises to come to an end once our lips are allowed to roam freely over theirs."

Alain de Botton  "How Proust Can Change Your Life"



Lovesick teenagers





"Lovesick teenagers don't ever die.
They will live forever"

Bear in Heaven


Todas as noites, em sonhos


Todas as noites, em sonhos, chamo por ela. Perco a conta ao número de vezes. Quando por fim surge à minha frente, como se abrisse os olhos para a luz do dia, o sonho não dá ares de querer volatilizar-se. Na verdade, começa precisamente a partir daí.



sábado, abril 04, 2015

A very special gift to remember






There's snowflakes in the sky
And geese are flying high
But it's April in my heart again

The devil's got his due
Love's holiday is through
Love and I have made a happy start again

Though leaves lie on the ground
The world just turned around
It isn't fall at all, you see
It's spring that I have found

There's frost in Central Park
At five it's almost dark
What's the difference when you've heard love's sweet amend

There's snowflakes in the sky
And geese are flying high
But there's April in my heart again



quinta-feira, março 26, 2015

Waxahatchee "Be Good"




It's unclear now, what we intend
We're alone in our own world
You don't wanna be my boyfriend
And I don't wanna be your girl
And that, that's a relief
We'll drink up our grief
And pine for summer
And we'll buy beer to shotgun
And we'll lay in the lawn
And we'll be good

Now I'm laughing at my boredom
At my string of failed attempts
Because you think that it's important
And I welcome the sentiment

And we talk on the phone at night
Until it's daylight
And I feel clever
And I hear the slow in your speech
Yeah you're half asleep
Say goodnight

Now I've got friendships to mend
I'm selfishly dispossessed
You don't wanna be my boyfriend
And that's probably for the best
Because that, that gets messy
And you will hurt me
Or I'll disappear

So we will drink beer all day
And our guards will give way
And we'll be good



domingo, março 08, 2015

Dorothy Ashby - Life Has It's Trials






Como um chalé


O amor acordou em mim como um furacão.
Vem em rajadas que ora serenam ora abanam tudo.
E dói por vezes
como dói a toda a criança que se faz grande.
Só que este amor em mim já nasceu grande.
Braços e pernas irrompendo pela casa,
um peito fumegante como um chalé
que só sabe
romper as costuras de tão contente.
Por vezes ganha medos de andar assim
tão nu.
Mas passa-lhe depressa, porque o que é autêntico
anda assim. Basta olhar para a natureza.



Always, Lady Day






sexta-feira, março 06, 2015

Romare - Hey Now (When I Give You All My Lovin`)






quinta-feira, março 05, 2015

Gramatik - Lorena's Butterfly






The Menahan Street Band - Make the Road by Walking







Savages - You're My Chocolate





ou aqui numa versão ligeiramente diferente.



terça-feira, março 03, 2015

Sem título


Os sonhos por terra, amarelecidas folhas
calcadas com a indiferença de quem passa.
Só as chora a árvore despida. Ela que já viu
dezenas de estações, olha para elas e sente-as
desesperadamente
como se fossem as derradeiras.
Sabe que é nas folhas que se gera a seiva,
que é nos sonhos que corre a vida. E não tem memória
de folhagem mais bela do que esta
que agora jaz por terra.



sexta-feira, janeiro 16, 2015

Espectador


Estou a meio de um filme e penso em ti. És quem mais quero ver aparecer no ecrã. Quem deveria tomar o destaque sobre todas essas representações em pal-plus. Queria um monólogo teu. Um em permanente diálogo com os meus pensamentos e sensações de espectador.



quinta-feira, janeiro 15, 2015

Quoting

"one must never miss an opportunity of quoting things by others which are always more interesting than those one thinks up oneself" (Proust)


Learnings


"In fact, in Proust’s view, we don’t really learn anything properly until there is a problem, until we are in pain, until something fails to go as we had hoped.
«Infirmity alone makes us take notice and learn, and enables us to analyse processes which we would otherwise know nothing about. A man who falls straight into bed every night, and ceases to live until the moment when he wakes and rises, will surely never dream of making, not necessarily great discoveries, but even minor observations about sleep. He scarcely knows that he is asleep. A little insomnia is not without its value in making us appreciate sleep, in throwing a ray of light upon that darkness. An unfailing memory is not a very powerful incentive to study the phenomena of memory.»"
"We suffer, therefore we think, an we do so because thinking helps us to place pain in context. It helps us to understand its origins, plot its dimensions, and reconcile ourselves to its presence.
It follows that ideas that have arisen without pain lack an important source of motivation. For Proust, mental activity seems divided into two categories; there are what might be called painless thoughts, sparked by no particular discomfort, inspired by nothing other than a disinterested wish to find out how sleep works or why human beings forget, and painful thoughts, arising out of a distressing inability to sleep or recall a name—and it is this latter category which Proust significantly privileges.
He tells us, for instance, that there are two methods by which a person can acquire wisdom, painlessly via a teacher or painfully via life, and he proposes that the painful variety is far superior—a point he puts in the mouth of his fictional painter Elstir, who treats the narrator to an argument in favor of making some mistakes:
«There is no man, however wise, who has not at some period of his youth said things, or even lived in a way which was so unpleasant to him in later life that he would gladly, if he could, expunge it from his memory. But he shouldn’t regret this entirely, because he cannot be certain that he has indeed become a wise man—so far as any of us can be wise—unless he has passed through all the fatuous or unwholesome incarnations by which that ultimate stage must be reached. I know there are young people … whose teachers have instilled in them a nobility of mind and moral refinement from the very beginning of their schooldays. They perhaps have nothing to retract when they look back upon their lives; they can, if they choose, publish a signed account of everything they have ever said or done; but they are poor creatures, feeble descendants of doctrinaires, and their wisdom is negative and sterile. We cannot be taught wisdom, we have to discover it for ourselves by a journey which no one can undertake for us, an effort which no one can spare us.»"
“Happiness is good for the body,” Proust tells us, “but it is grief which develops the strengths of the mind.”
«A woman whom we need and who makes us suffer elicits from us a whole gamut of feelings far more profound and more vital than does a man of genius who interests us.»
"It is when we hear that Proust’s lover died in a plane crash off the coast of Antibes, or that Stendhal endured a series of agonizing unrequited passions, or that Nietzsche was a social outcast taunted by schoolboys, that we can be reassured of having discovered valuable intellectual authorities. It is not the contented or the glowing who have left many of the profound testimonies of what it means to be alive. It seems that such knowledge has usually been the privileged preserve of, and the only blessing granted to, the violently miserable."
"Perhaps the greatest claim one can therefore make for suffering is that it opens up possibilities for intelligent, imaginative inquiry—possibilities that may quite easily be, and most often are, overlooked or refused."
«The whole art of living is to make use of the individuals through whom we suffer.»
«Griefs, at the moment when they change into ideas, lose some of their power to injure our heart.»
"However, only too frequently, suffering fails to alchemize into ideas and, instead of affording us a better sense of reality, pushes us into a baneful direction where we learn nothing new, where we are subject to many more illusions and entertain far fewer vital thoughts than if we had never suffered to begin with. Proust’s novel is filled with those we might call bad sufferers, wretched souls who have been betrayed in love or excluded from parties, who are pained by a feeling of intellectual inadequacy or a sense of social inferiority, but who learn nothing from such ills, and indeed react to them by engaging a variety of ruinous defense mechanisms which entail arrogance and delusion, cruelty and callousness, spite and rage." (Alain de Botton "How Proust Can Change Your Life")



What am I


"O my God, what am I
That these late mouths should cry open
In a forest of frost, in a dawn of cornflowers."

"Ó meu Deus, o que sou eu
Possam as últimas bocas gritar alto
Numa floresta de gelo, num amanhecer de centáureas."


* do poema Poppies in October ("Papoilas em Outubro") in "Ariel" de Sylvia Plath (tradução de Maria Fernanda Borges).



"Solidão"


Não: uma torre se faça do meu peito
e eu próprio seja posto à sua beira:
onde nada mais há, haja inda uma vez dores
e inefabilidade, mais uma vez mundo.

Mais uma coisa só no desmedido,
que se faz escura e de novo se ilumina,
mais uma última, ansiosa face,
repelida para o nunca acalmável,

mais uma extrema face de pedra,
dócil aos seus pesos interiores,
que as amplidões, que serenamente a aniquilam,
obrigam a ser sempre mais feliz.

Rainer Maria Rilke
(tradução de Paulo Quintela)




Desvio-me do caminho


“Desvio-me do caminho. O verdadeiro caminho passa por uma corda que não está esticada a grande altura, mas muito próxima do chão. Parece estar ali para nos fazer tropeçar, e não para que se passe por cima dela.” (Franz Kafka)



«Árvore»


Cego
De ser raiz
Imóvel
De me sentir caule
Múltiplo
De ser folha
Aprendo
A ser árvore
Enquanto
Iludo a morte
Na folha tombada do tempo


Mia Couto



domingo, janeiro 11, 2015

Il y a toujours un oiseau


No auge da tempestade
há sempre um pássaro para nos tranquilizar.
É a ave desconhecida
que canta antes de voar.


René Char



quinta-feira, janeiro 08, 2015

High and bright



ilustração de Danuta Wojciechowska

Tomam-se banhos de luar porque nos concedem visões. Assim nos fazem crer alguns poetas e escritores de fábulas. Tivesse eu patas felpudas como as de um gato e saberia bem a que janela me chegar sem fazer o mínimo ruído.


Suspenso da sua respiração


Uma linha de sombra afaga-lhe o rosto enquanto dorme. Estático, há já uns instantes que Cris lhe vela a respiração: leve, pautada por constância, em simbiose com os rumores do mar ali ao pé. Trémulos os dedos, Cris acha por bem descolá-los desse rosto de anjo.



terça-feira, janeiro 06, 2015

Sem deus nem adeus


O habitante
(ao meu pai)


Se partiste, não sei.
Porque estás,
tanto quanto sempre estiveste.

Essa tua,
tão nossa, presença
enche de sombra a casa
como se criasse,
dentro de nós,
uma outra casa.

No silêncio distraído
de uma varanda
que foi o teu único castelo,
ecoam ainda os teus passos
feitos não para caminhar
mas para acariciar o chão.

Nessa varanda te sentas
nesse tão delicado modo de morrer
como se nos estivesses ensinando
um outro modo de viver.

Se o passo é tão celeste
a viagem não conta
senão pelo poema que nos veste.

Os lugares que buscaste
não têm geografia.

São vozes, são fontes,
rios sem vontade de mar,
tempo que escapa da eternidade.

Moras dentro,
sem deus nem adeus.


Mia Couto in "vagas e lumes"



terça-feira, outubro 21, 2014

Butterfly wings




Jean Dubuffet



quarta-feira, outubro 15, 2014

Love ride






Come on I wanna 
take you for a ride.
I know you don't feel safe,
but it's alright.
Cos' I really just have too much to dream 
tonight.
Now I know this place,
it ain't far from here,
where you can love me
all night.

I wanna take you for a ride
I wanna take you for a love ride
tonight.

It's so warm and cosy.
And we can rest our 
troubles, sorrows.
We can heal our damaged bodies.
And in this hideout
we can love the right way.
We can love the wrong way.
We can love
any way.

Just let me take you for a ride
let me take you for a love ride
tonight.

(...)



quarta-feira, outubro 08, 2014

You "sing to me, beautiful one"






terça-feira, outubro 07, 2014

Assim



Tamara de Lempicka, Sleeping woman (1935)


Na galeria, há largos minutos frente ao quadro. Pensa no quanto gostaria de saber e poder pintá-la assim. Estivesse ele na vez da pintora e teria podido demorar-se no seu quarto e contemplá-la assim. E sorri porque se imagina a protelar ao máximo a conclusão do quadro. Não tendo o olhar nem o dom de Lempicka, ele sabe que não haveria outro modo senão o de pintá-la assim. Só de olhar para o quadro, crê que quando fecha os olhos, é esta a imagem que traz consigo até adormecer, e que quando acorda, acorda com o desejo de a poder observar assim, mas, desta feita, deitada a seu lado, tão serenamente entregue ao sono, recebendo a luz da manhã que parece implorar por banhá-la assim.
(O Rumo Que Dou A Certas Ficções)



segunda-feira, outubro 06, 2014

O sonho




Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

Clarice Lispector



Leituras mais "sérias"



Apetece-me escrever sobre uma das primeiras feiras do livro com que me deslumbrei. Devia ter uns 12 ou 13 anos. Lembro-me de cirandar por entre as mesas da biblioteca da escola, onde decorria a pequena feira, meio perdido e fascinado com a quantidade de livros, com o colorido das capas, com todos aqueles nomes de autores que eu desconhecia. Corri as mesas todas à procura do livro ideal para fazer o salto para outro tipo de leituras que não os livros de "Uma Aventura" ou os enigmáticos casos do sr. Hitchcock. Algo que não o intimidatório Eça. Nisto ia trocando impressões com um amigo, igualmente aficionado por livros. Passávamos livros para as mãos um do outro e perguntavamo-nos que tal este ou aquele autor, se o livro valeria a pena. Mas nem eu nem ele tínhamos propriamente quem nos guiasse nas obras a ler. A descoberta era um acto da mais individual liberdade. A dada altura notei que a minha professora de português andava por ali a folhear, lendo na diagonal uma ou outra passagem. Cheguei-me timidamente ao pé dela e perguntei-lhe o que achava do livro que tinha escolhido - era o "Diário" de Anne Frank. Sorriu, acrescentando que seria um bom começo para leituras mais "sérias". E a verdade é que foi mais que isso. Foi um feroz abrir de olhos para o mundo. A primeira grande descoberta nesse universo de palavras e sentimentos, que por vezes nos batem tão ou mais forte que a própria realidade.



sábado, outubro 04, 2014

Estás Só



Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

Ricardo Reis, in "Odes"



sexta-feira, outubro 03, 2014

Rumo ao farol


Caminho à beira-mar. O areal a perder de vista e não se vê quase vivalma. Estamos no Outono, mas o sol ainda aconchega a pele. O mar já mais revolto, mas ainda com as cores e os reflexos do Verão. Os sulcos na areia, feitos pelos tractores da faina, parecem trincheiras onde, há algumas semanas atrás, centenas de pessoas se esticavam sobre as toalhas. Vou a um passo regular, sem pausas. As minhas pernas dizem-me que poderia fazê-lo indefinidamente. Lá muito ao longe o farol, que vislumbro por entre uma névoa muito ténue. No meu íntimo quero elegê-lo como destino. Mas não importa se não for hoje, nem amanhã, nem depois. Enquanto caminhar assim à beira do mar, sentir-me-ei sempre acompanhado, como se me fundisse na sua imensidão. O que verdadeiramente importa não é aonde vou chegar. É o agora. E toda a beleza à minha volta. O areal vai-se tornando cada vez mais uma tela lisa onde vão escasseando as pegadas. As dunas invioladas, alisadas pelo vento. Sensação de deixar a civilização para trás se exceptuar alguns detritos humanos que o mar repeliu das entranhas. No declive de uma duna, restos de pneus, garrafas e cordame encontram-se dispostos formando a palavra AMOR. Quem terá sido? E desde quando é que ali está? O mar conta-me histórias duras, de inclemência, de tenacidade, de esforço e superação. O mar é verdadeiro em tudo o que conta. E tantos a dizerem que é traiçoeiro. Mas não faço coro com essas vozes. Temperamental, sim. Com muitos estados. Que podem mudar de um instante para o outro. Mas ninguém pode dizer que lhe desconhece a verdadeira natureza. Lembro-me de assistir, era eu ainda criança, ao meu pai e outros senhores a transporem o areal num ápice e atirarem-se ao mar para socorrer um senhor que se estava a afogar e que chegou mesmo a ser engolido e a sumir-se da nossa vista. E o mundo como que suspenso, longamente suspenso, até ao instante em que os seus vultos emergiram à tona. O mar é como é e também daí o seu fascínio. Perdi a noção do tempo. Parece-me que estou muito longe de tudo. Passo por bandos de gaivotas. Tão imóveis à minha passagem, que parecem hipnotizadas pela força do mar. Mais à frente, por entre guinchos, as escamas prateadas de um carapau a servir-lhes de festim. Pequenas conchas reluzem na areia, lambidas pela espuma da rebentação. A areia quente sob os pés, o vaivém das ondas mesmo ao lado, o vento no rosto, os salpicos de maresia, tudo é conforto. E sabe bem sentir os músculos das pernas a retesarem-se, contrariando velhos hábitos. Durante todo este tempo, cruzei-me apenas com um senhor que vinha a correr, os pés a chapinharem na fina película de água remanescente que aguarda por uma nova onda a despenhar-se. Também ele terá a sua relação especial com o mar. Não há como não ter.



quinta-feira, outubro 02, 2014

«O Mar»




Nascer... morrer..., nada perguntes.
São simplesmente acontecimentos.
No meio, um mar tempestuoso.
E isto é o que sabemos.

No meio, um mar, sobre as suas ondas
confiadamente naveguemos
deixando-nos levar, deixando-nos
levar... Nossas paixões são seus ventos.

Bem que de súbito se soltem
poderes que não conhecemos,
e se povoe nossa solidão
de promontórios de mistério,

siga a nave o seu caminho
real contra o incerto,
siga a vida, siga sempre, avance
tenaz seu rumo contra o pensamento.


Alfonso Costafedra




quarta-feira, outubro 01, 2014

One possible "love" definition




"Não consigo apreciar a música porque também tu não a podes apreciar" in "Children of a Lesser God" filme de Randa Haines (1986), com William Hurt no papel de um professor de linguagem gestual e Marlee Matlin no papel de surda-muda. Escolhi esta, mas o filme está cheio de definições pela positiva.



Alexander Payne "Nebraska"





Grande Bruce Dern.




sábado, setembro 27, 2014

...






sexta-feira, junho 27, 2014

Biggest Shadows






quarta-feira, junho 25, 2014

Look at the treila




segunda-feira, junho 23, 2014

Mov'es



terça-feira, junho 17, 2014

Play it again, Sam


“a música compõe os sentimentos descompostos e alivia os trabalhos que nascem do espírito”

Miguel de Cervantes Saavedra “Dom Quixote de La Mancha”



segunda-feira, junho 16, 2014

Esperanças sem nome

“(...) só assim conseguimos viver, sustidos por esperanças sem nome. Pessoas felizes confundem-nas com objectivos que marcam o seu caminho (...)”

Annemarie Schwarzenbach "Morte na Pérsia"


Não foi ar

"Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo, e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão."

Annemarie Schwarzenbach "Morte na Pérsia"