quarta-feira, setembro 06, 2006

Curva fatídica



Krystal Tweeddale, Life


Os casulos ficaram para trás, abandonados, a arejar. Leitos fetais ainda quentes de um recente parto solitário. Nascer, morrer – actos da mais extrema solidão, por mais acompanhado que se esteja.

Nessas primeiras horas, avançando pata ante pata, por entre ervas altas, colados ao solo e atentos ao menor ruído, os insectos não podiam compreender o mundo novo que se lhes apresentava. Todas as formas lhes pareciam estranhas, assustadoras, e perante isso desejariam tornar a mergulhar no sono letárgico, no calor embrionário da sua lenta gestação. Porém, a fome, o vazio a remoer as entranhas, a angústia de se sentirem incompletos enquanto não se dessem a conhecer e transmitissem algo de si, talvez o grito de emancipação e de reprodução emanado dos genes, como que somados numa acção de despejo amplificada de todas as direcções, impelia-os para fora dos casulos.

Alguns insectos reuniram-se na berma mais próxima, ao início da curva, desconhecendo os riscos de aí aguardarem vez, em fila para o salto indefinido. À sua frente, vultos gigantes (automóveis? como poderiam sabê-lo?...), velozes, ruidosos, varriam a escuridão com potentes feixes de luz. O solo tremia à sua passagem. Os insectos, de cada vez que entreviam aqueles olhos, ao longe, estremeciam de emoção. Primeiro, apenas pontos luminosos, distantes e suspensos no ar. Raios misteriosos que pareciam escapar-se de nenhures. Divindades cuja chegada se fazia anunciar? Aos poucos aglomeravam-se em cones de irradiação, tragando a negritude de tudo quanto os envolvia. Depois cresciam cada vez mais depressa na sua direcção e a massa de insectos assustava-se com aqueles olhos de colosso, de bicho acossado, a devorar não só o espaço, mas a noite inteira. Relâmpagos cruzando o ar, trovejando estrada fora. E por instantes ficavam cegos, sem perceber o que lhes acontecia.

Dessas carapaças enormes, desprendiam-se por vezes faíscas, faúlhas, cintilações metálicas de diversas tonalidades. Para surpresa geral da horda de insectos, um brilho metálico em tudo idêntico relampejava igualmente dos seus próprios corpos. E sentiam-se de alguma forma unidos aos colossos.

Relâmpagos cruzando o ar, trovejando estrada fora... como um incitamento, uma prece, uma ordem superior. Cegueira, comunhão e desejo de entrega sem limites. Os insectos nada mais podiam fazer senão assistir em silêncio, mudos de emoção, ao salto de alguns dos seus irmãos para o grande desconhecido.

Os focos de luz prometiam um olhar novo sobre o mundo. O rasto quente e rubro como uma presença aconchegante, que os colossos deixavam atrás de si, em despedida, a extinguir-se aos poucos em saudade, incutia-lhes confiança, mitigava-lhes os medos. Esse ronco animal, de trovão, talvez fosse mesmo um grito de incitamento, a rasgar o silêncio passivo da noite, de que deviam seguir com eles. E muitos continuaram a dar o salto final para o encandeamento, sem o relacionarem com o incremento das baixas.

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