domingo, setembro 03, 2006

Votar as interferências à margem

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Giorgio de Chirico, Les rivages de la Thessalie (1926)
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O piano emite uma nostalgia que em todas as eras encontrará o seu eco. Em mim, agora, parece ecoar cada uma das suas notas. Parece, mas julgo faltar sempre qualquer coisa: um compasso, uma pausa, uma dissonância... Nas partituras pessoais, a pauta original nunca chega a ser transcrita fidedignamente. Como se o som chegasse por meio de um filtro que suprimisse certos pormenores. Aqueles pormenores aos quais o músico quis confiar a riqueza da sua composição.
Sou dado a desatenções, parece que tudo me escapa, mesmo nos instantes em que tento concentrar-me ao máximo. Há sempre algo que me desvia noutras direcções. Pode ser um rosto, um olhar, um corpo, uma palavra, um movimento. Ou o caudal do passado que engrossa e me põe de sobreaviso para a possibilidade de galgar as margens. Há um sem número de coisas que me amarram e me impedem de fruir o momento. Sempre assim foi. A grande diferença é que agora não mais deixarei de lutar por usufrui-lo um dia de forma plena.
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