domingo, agosto 23, 2015

Feast





Omnívero com preferências bem demarcadas, pois que não vai muito com os vegetais. Não lhe inspiram assim tanta festa. Inteligente e sensível como é, é precisamente com um dos verdinhos que acaba por apadrinhar a maior das festas.


sexta-feira, agosto 21, 2015

O verdadeiro amor


O verdadeiro amor. É normal, é sério, é prático?
O que é que o mundo ganha com duas pessoas que vivem num mundo delas próprias?

Colocadas no mesmo pedestal sem mérito nenhum, extraídas ao acaso entre milhões, mas convencidas que era assim que tinha de ser - em prémio de quê? De nada.
A luz desce de qualquer lado.
Porquê nestas duas e não noutras?
Não é isto uma injustiça? É sim.
Não é contra os princípios estabelecidos com diligência e derruba a moral no seu cume? Sim, as duas coisas.

Olha para este casal feliz.
Não podiam ao menos tentar esconder-se, fingindo um pouco de melancolia, por cortesia com os seus amigos?
Ouçam como riem - é um insulto a linguagem que usam - ilusoriamente clara.
E aquelas pequenas celebrações, rituais, as mútuas rotinas elaboradas - parece mesmo um acordo feito nas costas da humanidade.

É difícil prever a que ponto as coisas chegariam se as pessoas começassem a seguir o seu exemplo.
O que aconteceria à religião e à poesia?
O que seria recordado? Ou renunciado?
Quem quereria ficar dentro dos limites?

O verdadeiro amor. É mesmo necessário?
O tacto e o silêncio aconselham-nos a passar por cima dele em silêncio, como sobre um escândalo na alta roda da vida.
Crianças absolutamente maravilhosas nasceram sem a sua ajuda.
E ele chega tão raramente que nem num milhão de anos conseguiriam povoar o planeta.

Deixem que as pessoas que nunca encontraram o verdadeiro amor continuem a dizer que tal coisa não existe.

Com essa fé será mais fácil para eles viver e morrer.


Wislawa Szymborska



Li algures


Li algures que a poesia não salva ninguém.
Que atirada ao mar e ao vento, não impede
ninguém de se afogar ou estatelar.
Também já li de uns que a poesia
é uma necessidade. De outros um ócio.
Ela é tantas coisas para tanta gente.
Morta para uns. Viva para outros.
Há da que engorda, da que pede bolachas e chás.
Há da que desfere cortes que nem tesouras
invisíveis.
No final há até quem assobie para o lado
como quem vê tédio em todas as esquinas.
Outros a desenrodilharem fios de percepção
e a desejarem perder-se por mais e más ruelas.
Há quem exclame muito, quase na iminência
de bater no peito ou arrancar cabelos.
Há também quem feche os olhos em silêncio
sem saber muito bem para onde vai.
Há poesia que nos segreda o quanto somos cegos.
E pequenos. E sempre órfãos de afecto.
A boa poesia talvez seja aquela que no-lo diz
com voz amiga, sem maldade.
Talvez não haja boa, nem má, nem assim assim.
Para quem a sorte não desenhou um ombro,
abrem-se assim janelas para outra luz.



Não Deixeis um Grande Amor


Aos poucos apercebi-me do modo
desolado incerto quase eventual
com que morava em minha casa

assim ele habitou cidades
desprovidas
ou os portos levantinos a que
se ligava apenas por saber
que nada ali o esperava

assim se reteve nos campos
dos ciganos sem nunca conseguir
ser um deles:
nas suas rixas insanas
nas danças de navalhas
na arte de domar a dor

chegou a ser o melhor
mas era ainda a criança perdida
que protesta inocência
dentro do escuro

não será por muito tempo
assim eu pensava
e pelas falésias já a solidão
dele vinha

não será por muito tempo
assim eu pensava
mas ele sorria e uma a uma
as evidências negava

por isso vos digo
não deixeis o vosso grande amor
refém dos mal-entendidos
do mundo


José Tolentino Mendonça, in 'Longe não Sabia'



segunda-feira, agosto 17, 2015

Instantâneos de luz


Gritinhos de alegria, pernas como que a dar aos pedais no ar. O semblante radiante de um pai a segurar o filhote ao colo à altura de um secador automático. Bracinhos esticados a descrever rotas controladas, ora de aproximação ora de afastamento à corrente de ar. Mãozinhas num frenesim de abre e fecha a tentar agarrar e conter o misterioso sopro quentinho.