sexta-feira, março 23, 2007

Gosto dos filmes do Wong Kar-Wai...

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Pela fusão plástica entre som e imagem. Pela cadência dos corpos. Da sensação de tempo e movimento suspensos - instantes que parecem querer tocar o estado de espírito da personagem, facultar-nos o acesso ao seu interior a partir do exterior sonoro e visual. Gosto da atenção dada ao olhar (com tempo suficiente ao registo de cada nuance), ao modo como a personagem se deixa simplesmente estar. Da expressividade do rosto e dos gestos captados com margem de manobra suficiente para o espectador compor a sua própria ideia da essência da personagem, do teor dos seus pensamentos, das suas divagações... Gosto da atenção especial que é dedicada à fotografia e à iluminação, à composição cuidada de cada plano. Da luz que incide sobre os corpos e sobre os rostos. Da forma como a noite e os seus locais, nos mais variados ritmos, são captados. Gosto da paleta de cores que vai desde o vermelho vivo, carregado, físico, passando pelo amarelo até às cores mais escuras. Gosto das luzes de néon que conferem uma certa frigidez aos exteriores. Gosto da luz dos candeeiros que iluminam os quartos; do fumo do tabaco que se evola ao nível do rosto, da entrega ao prazer de fumar e do efeito que isso confere ao vermos a personagem imersa nos seus pensamentos; do abandono dos corpos em si, da languidez, das pernas esticadas sobre a cama; da sensualidade que há num corpo cujo desejo não pode nem é saciado; dos olhares solitários derramados de uma janela com vista para as vias, passeios e fachadas. Gosto dos interiores: das casas, dos restaurantes. Do contraste entre o silêncio mais desolador e perturbante que assiste a um rosto e o buliço à sua volta.
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1 Comentários:


Anonymous burlesconi disse...

Quem escreve assim sobre cinema...
Gostaria que um dia escrevesses sobre o "Gato Branco, Gato Preto" (ou vice-versa, não estou certo)...

26/03/07, 11:11  

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