domingo, novembro 05, 2006

Always something's missing

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«TODOS AQUELES QUE PROCURAM VERDADEIRAMENTE SOFREM UMA DESILUSÃO

Cais de Mahogonny. Vindo da cidade chega agora - como antes as pessoas com as malas - Paul, que os amigos procuram reter.

JAKOB
Paul, porque é que vais fugir?

PAUL
E o que é que me prende aqui?

HEINRICH
Porque é que estás a fazer essa cara?

PAUL
Porque vi uma tabuleta
Em que estava escrito: "Aqui é proibido."

JOE
Não tens gin e whisky barato?

PAUL
Barato de mais!

HEINRICH
E calma e harmonia?

PAUL
Calma de mais!

JAKOB
Se te apetece comer um peixe
Podes ir pescá-lo.

PAUL
Isso não me faz feliz.

JOE
Fumamos.

PAUL
Fumamos.

HEINRICH
Dormimos um pouco.

PAUL
Dormimos.

JAKOB
Nadamos.

PAUL
Vamos comer uma banana!

JOE
Olhamos para a água

PAUL só encolhe os ombros.

HEINRICH
Esquecemos.

PAUL
Mas falta qualquer coisa.

JAKOB, HEINRICH, JOE
Maravilhoso é o cair da tarde
E tão agradáveis as conversas que os homens têm entre si!

PAUL
Mas falta qualquer coisa.

JAKOB, HEINRICH, JOE
Tão agradáveis a paz e a calma
E incomparável o esplendor da natureza.

PAUL
Mas falta qualquer coisa.

1
Acho que vou comer o meu chapéu
Acho que isso me vai satisfazer.
Porque é que uma pessoa não há-de comer o próprio chapéu
Se não tem mais nada, mais nada, mais nada para fazer?

Vocês aprenderam o ABC da bebida
Viram a lua brilhar pela noite fora
O bar de Mandelay fechou sem vida
E não há nada, não se passou nada até agora.

2
Acho que fazia melhor em ir para a Geórgia
Acho que pelo menos uma cidade deve ter.
Porque é que uma pessoa não há-de ir para a Geórgia
Se não tem mais nada, mais nada, mais nada para fazer?

Vocês aprenderam o ABC da bebida
Viram a lua brilhar pela noite fora
O bar de Mandelay fechou sem vida
Pois é rapazes, não há nada, não se passou nada até agora.

JAKOB, HEINRICH, JOE
Paul, mantém o sangue frio
Isto é o bar de Mandelay!

JOE
O Paul quer comer o chapéu.

HEINRICH
Porque é que queres comer o chapéu?

JAKOB, HEINRICH, JOE
Estás doido, Paul!

JAKOB
Não, não podes fazer isso, Paul!

JAKOB, HEINRICH, JOE
Tu vê lá até onde vais!
Paul, estás a esticar a corda de mais!
Os três a gritar:
Nós atiramos-te ao chão
Paul, não te largamos da mão
Até voltares a ser uma pessoa!

PAUL calmo:
Oh, rapazes, mas eu não tenho vontade nenhuma de ser uma pessoa.


JOE
Pronto, agora que já desabafaste, voltas calmamente connosco para Mahagonny.

Conduzem-no de volta à cidade.»



* retirado da peça "Ascensão e queda da cidade de Mahagonny" de Bertolt Brecht.
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2 Comentários:


Blogger  disse...

Gostei do texto. É uma bela passagem - divertida. Ainda assim, quem não teve a oportunidade de ouvir o cláudio a declamar o texto enquanto se escreve um post para o entre-duas-cidades, perdeu o melhor do texto.
Ainda assim, é uma boa escolha este texto do Brecht
:)

05/11/06, 15:30  

Blogger Cláudio disse...

Ó amigo! Eu? com jeito para declamador? Nem ler o ponto, meu amigo! Antes comer chapéus do que isso... Ouvidos e estômagos agradecem. É que a minha vozita nasalada é de digestão mais difícil... Mas prós amigos há sempre bicarbonato de sódio ao dispôr e por isso nem sempre os poupo... :)

05/11/06, 16:36  

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