sábado, novembro 18, 2006

Uma casa sem retratos

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Uma casa sem retratos, nem fotografias é uma casa sem memórias? Ser-se iconoclasta em relação ao passado é desviar a essência da rememoração para os campos da adoração de uma divindade? Como naqueles cultos que excluem qualquer forma de representação pictórica? Sem imagens físicas e reais que nos "fixem" a um instante do passado, livres para as recriarmos mentalmente, teremos facilitada a tarefa de elevar uma certa ideia de passado a um idílio, a um paraíso perdido que por si só justifica um culto. E sabendo com que frequência os cultos criam amarras à vivência plena do presente, não será o culto do passado um dos mais perigosos?
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4 Comentários:


Blogger  disse...

Curioso. Sou grande fã de fotografias - é verdade, mas não sou grande fã de ter fotografias numa casa. Não acho feio; até acho bonito. A minha vizinha tem a sala quase forrada a molduras com fotos de familia e acho-a lindissima. A minha tendência é no entanto de não colocar fotos no meu espaço. Mesmo estando longe das pessoas como estou habitualmente..

18/11/06, 18:32  

Blogger Cláudio disse...

Em minha casa também há muito poucas fotos à vista. Prefiro-as resguardadas no interior dum álbum, até à próxima revisitação a mando das saudades. São como pequenos puzzles de nós e não convém estar sempre a dar de caras com um pedaço do nosso passado estampado numa parede ou numa cómoda. Mantenho em mim o que merece ser cultivado, relembrado - tendo eu a escolha de ir ao seu encontro. Já me basta o que por vezes a memória desenterra sem que eu queira. Tropeçar numa foto numa estante, que hoje me surge inofensiva, mas que amanhã evoca outra coisa qualquer, não é lá muito do meu agrado. Bem.. mas as coisas não são tão lineares como as coloco aqui...

19/11/06, 15:46  

Blogger magarça disse...

Talvez a presença diária de uma foto lhe retire a magia do reencontro com o passado.

22/11/06, 00:12  

Blogger Cláudio disse...

Magarça, tens razão, também passa por aí... De tanto vermos a mesma foto, acaba por se correr o risco de ela se banalizar perante o nosso olhar, de nos tornarmos indiferentes a ela a pouco e pouco. Talvez exagere, mas acho que alguma da magia acaba por se perder pelo efeito de repetição.

25/11/06, 02:06  

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