sexta-feira, março 27, 2009

O Cativo

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Klee, Captive
.
I

A minha mão tem só um
gesto de afugentar;
da fraga húmida caem
gotas sobre as velhas pedras.

Ouço só este bater,
meu coração acompanha
este cair das gotas
e com elas se desgasta.

Se caíssem mais depressa,
se outra vez viesse um bicho...
Algures havia mais luz -.
Mas, que sabemos nós?!


II

Imagina o que agora é céu e vento,
e respiração da boca e luz dos olhos,
petrificado em volta do lugar
que te rodeia o coração e as mãos;
e o que é amanhã e: depois e: mais tarde
e o ano que há-de vir e os mais que virão -
que era chaga aberta em ti, cheia de pus,
toda inflamada, e não mais amanhecia;

e que tudo o que foi endoidecia
e esbracejava em ti, a linda boca,
que nunca ria, espumante de riso;
e que o que foi teu Deus era só o teu guarda,
e metia, de mau, na última abertura
um olhar sujo. E tua ainda vivo.


Rainer Maria Rilke
(tradução de Paulo Quintela)

5 Comentários:


Blogger verdades_e_poesia disse...

Bom post. Um abraço

30/03/09, 13:42  

Blogger Cláudio disse...

Obrigado. Mas o Klee e o Rilke é que devem ficar com os louros ;) Abraço.

30/03/09, 14:30  

Blogger Inês Leitão disse...

Nós gostamos todos cada vez mais das tuas escolhas.

cheers

14/04/09, 09:41  

Blogger sandra andrade disse...

gosto tanto do nome do blog

21/04/09, 20:01  

Blogger ninguém disse...

sensivel...


Cheiro,


Gi

24/05/09, 19:53  

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