sábado, janeiro 20, 2007

Numa qualquer rua de Paris *

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«Em Nome»


Em nome da tua ausência
Construí com loucura uma grande casa branca
E ao longo das paredes te chorei
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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Tenho seguido a linha de sombra que te desenha nas calçadas que percorro. Mas as nuvens são intromissas e por natureza escondem o sol. Desvanecem-se assim as sombras sob a sombra maior que elas trazem. Perdido, desvio os olhos do chão para os signos caóticos inscritos nas paredes. Busco nelas uma qualquer palavra que se aparente a uma casa onde me sinta bem. Sílabas que me aconcheguem, ditadas de um país estrangeiro, e que digam olá ao desenraízado que sou. Num poço de contradições faço chiar as unhas ao longo do cimento, como faria Freddy Krueger com as suas garras de aço perseguindo-me num pesadelo terrível. Arrependo-me do gesto. Afasto essa hedionda imagem da minha mente, confiando pedaçinhos de mim - os que me sobram e pendem do peito como escaras - nas irregularidades das paredes. É que transformar o belo no feio, para suportar a impossibilidade de um sonho, está nos antípodas de mim. Com isto, sabendo isto, preencho os retículos de uma cidade imaginária com graffitis que sinalizem a minha passagem, a mundividência das coisas boas, certo de que voltarei a passar por ali e não me reconhecerei nos gatafunhos que ali deixei. E nisso a única coisa que realmente importa será a empatia com esse desconhecido, que não terei forma de saber que fui eu em tempos. Um sabor de lembrança que de tão longe, por instantes, voltará a tornar-se inexplicavelmente íntimo.
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* na Paris onde acredito já não poder ir... Disse Paris, mas poderia ter dito Nenhures...
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2 Comentários:


Blogger angi disse...

compreender-te completamente, mas depois não ter uma linguagem, essa, para te responder, é um pouco triste. fica assim, compreendo-te tão bem.

22/01/07, 15:29  

Blogger Cláudio disse...

É bom sentir-me compreendido. Aliás excelente. Mas olha que os teus comentários e os teus posts desmentem a tua afirmação de não teres uma linguagem que... Tens a tua, que me é muito especial. Beijinho, amiga da bonita Antecâmara.

23/01/07, 10:45  

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