sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Engavetar

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Spencer Selby

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"A recordação é uma traição à natureza"
"O que foi não é nada, e lembrar é não ver"
Alberto Caeiro
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A recordação é uma construção nossa, um conjunto de sensações e percepções que evocamos artificialmente. É depender da imaginação para recriar as condições e sensações originais daquilo que nos tocou. Assim, a recordação não podia estar mais nos antípodas das sensações primárias, pois nela fundimos uma outra série de vivências e acontecimentos que deturpam o que verdadeiramente e em primeira mão sentimos.
Artifício parecido ao de arrumar gavetas. Reviramos primeiro o seu conteúdo, para depois dispormos as coisas de forma ordenada e mais ao nosso agrado. Recordar é construir um nicho de prazer com a imaterialidade do passado. É querer de novo tangível as sensações primárias, experienciá-las na origem. É não querer saber que lhes traímos a força utilizando iluminação artificial.
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4 Comentários:


Blogger J. disse...

mas... sera que, sem memoria, poderiamos identificar os nossos sentimentos ou supera-los?

16/02/07, 17:19  

Anonymous nelio disse...

não resisto a remeter-te para aqui
http://citizenmary.blogspot.com/2007/02/blog-post.html
lê a discussão que se gerou à volta deste post, pq é muito interessante.

17/02/07, 15:02  

Blogger Paula disse...

:-) adorei ler-te
tens razão
contudo não somos apenas sensações primárias mas também afectos construídos... o que se recorda não é apenas a imaginação do acontecimento, mas também os sentimentos que preencheram o acontecimento em si...

Beijinhos
:-)

20/02/07, 04:47  

Blogger Cláudio disse...

J., sem memória todos nós andaríamos por aqui perdidos, ao acaso, sem referências que nos servissem de guia. Concordo com o que dizes, o trabalho de memória é fundamental para reflectir sobre os acontecimentos e vê-los a uma outra luz até produzir sentido, ultrapassar os obstáculos e tentar seguir em frente... todo esse tipo de coisas com que gastamos horas a moer a cabeça... Beijinho :)

Obrigado Nélio pela sugestão e por me dares a conhecer o Citizen Mary.

Paula, de acordo contigo. No post, apesar de não o referir explicitamente assim, acho que não contradigo o que dizes: somos sensações primárias e construídas. Na minha pobre ignorância, sou levado a reiterar que os sentimentos em relação a algo passado também são construídos. Assim que se assimila o real em estado "bruto", fresquinho ainda :), começa logo a dar-se um trabalho de acomodação, de encaixe. E é um processo mutável, que geralmente não pára. As recordações vão-se revestindo de texturas, umas mais perceptíveis que outras. Começa-se lentamente a moldá-las ao nosso gosto, isto consciente ou inconscientemente, porque com o tempo alguns factos e pormenores se vão esbatendo, e, nesse terreno de indefinições, damo-nos por vezes a certas liberdades. Pequenas, porque também nos move o desejo de fidelidade ao ocorrido. Julgo que o inconsciente, como não podia deixar de ser, também actua aqui. Bem, páro por aqui estas impressões, que em verdade não passam disso, porque cientificamente pouco sustentadas. :) Beijinhos.

21/02/07, 14:34  

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