sábado, março 24, 2007

"The Passenger / Profissão: Repórter" de Michelangelo Antonioni (1975)

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Diz-se dos filmes dele que são formalmente irrepreensíveis, inovadores, eloquentes na exposição do argumento. Que ele está para o cinema, como Henri James estaria para a literatura. Que ele nos ensina a olhar, como se o fizessemos pela primeira vez.



Neste filme em particular, parece-me que a tónica do olhar é sobretudo abordada sob o prisma das diferenças culturais. Alguém que chegue a uma cultura distante e procure compreendê-la, tem sempre o olhar de origem a contaminar-lhe a percepção das coisas. Uma zona de fricção que resiste a apreendê-la no seu elemento, tal qual ela é para os autóctones. Por mais que procure estreitar pontes, submergir-se no novo, tentar ver as coisas pelo prisma do outro, as perguntas que lhe saiem da boca soarão sempre às de um estrangeiro. Dizem mais da sua cultura do que daquela sobre a qual ele se interroga. O mesmo com as respostas. As que ele receber dirão mais daquilo que ele deseja saber ou escutar. Assim o diz um habitante de uma aldeia africana entrevistado por David Locke (Jack Nicholson). Uma das mensagens que ecoa ao longo do filme, apesar da diversidade de contornos, vem nessa linha: é impossível cortar relações com o nosso background.
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De Antonioni conhecia apenas o "Deserto Rosso" e o "Blow Up". Comum a todos eles é a sensação de estranheza com que se fica no fim. A mim obriga-me a revê-lo mentalmente, em busca do sentido que parece ter querido fugir-me ao longo do filme. E ainda estou sob o seu efeito. Não é alheio a isto o facto de Antonioni ser reconhecidamente talentoso a discorrer visualmente sobre o tema da alienação.

Algumas notas soltas sobre o filme:

- Numa aldeia africana, alguns dos habitantes são danados a cravar cigarros aos gringos que lhes apareçam com ar perdido.



- A impotência de David Locke, frente ao jipe encravado nas areias do deserto, traduz bem o seu cansaço existencial.


- Simular a própria morte, morrer para os outros, como escapatória.


- Ver um bocadito de Barcelona - a do inevitável Gaudí - pelas lentes de Antonioni.


- Viajar num descapotável, ao sabor da inconsequência, com Jack Nicholson e Maria Schneider.


- Levar com poeira nos olhos ao embrenharmo-nos na Espanha profunda, nessa que não entra nos roteiros turísticos. Pode ser esse o resultado, ou pior ainda, quando se persiste na loucura de adoptar uma nova identidade. Os laços com o passado não se cortam assim impunemente. Não se lhe foge por mais que à nossa frente a estrada se abra em múltiplas direcções. A alienação, por mais conotada que esteja com a errância e a dispersão, acaba por ser a via mais rápida para a auto-imolação.


- Ainda estou para perceber a técnica por detrás daqueles cerca de sete minutos finais, sequenciais, em que a câmara vai abrindo em zoom para o exterior por entre as grades de uma janela, como se atravessasse o minúsculo espaço entre elas. (Creio que esta cena ombreia com a abertura do "Psycho" de Hitchcock.) E nesses sete minutos, elípticos, cabe o tempo de uma morte.

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4 Comentários:


Blogger Liliana disse...

guardei um rascunho muito pobre e pateta sobre este filme. dizia isto: gostei do momento em que se dá o primeiro flashback, no hotel. e gostei da última sequência. engenhosa, não?
bang me.

25/03/07, 15:52  

Blogger Suspiro disse...

Jack Nicholson, um dos meus ídolos da representação.
Um abraço

29/03/07, 07:55  

Blogger d. disse...

tenho aprendido aqui umas coisas!

29/03/07, 16:32  

Blogger magarça disse...

Gosto da leitura que aqui fazes do filme. Nos minutos finais, o tempo suspende-se, à espera da morte "anunciada".

01/04/07, 22:56  

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